"A escada para o Reino dos Céus está escondida em tua alma. Mergulha para dentro dos pecados que estão em ti mesmo e, assim, encontrarás ali uma escada pela qual poderás ascender" Isaac de Nínive.
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Obs.: Abaixo, tradução do versículo bíblico para outras línguas:

"POR ISSO A ATRAIREI, CONDUZI-LA-EI AO DESERTO E FALAR-LHE-EI AO CORAÇÃO" Oséias 2,16
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sábado, 1 de setembro de 2012

Atitude Orante por intermédio da Palavra







“Vossa Palavra é luz que ilumina meus passos, é lâmpada em meu caminho” 
Sl 118, 105.      


*   *   *

Existe uma diferença entre Palavra de Deus escrita – como um dado histórico passado – e Palavra de Deus revelada, ou seja, aquela que é confrontada com a história presente, na qual a pessoa está inserida, dando-se aí como concretização da Palavra de Deus pessoal ou comunitária à sua compreensão.
A Palavra escrita é um dado importante ao compararmos os feitos que Deus outrora realizou, numa época específica, para um povo específico, sob contexto similar ou diferente de hoje, e que nos leva a direcionar o nosso entendimento ao encarnar a mesma no aqui e  agora.
Para os antigos monges, era imprescindível e lhes bastavam por excelência o contato assíduo com a leitura sagrada, ou ‘lectio divina’, que, ruminada ao longo do tempo chegavam à compreensão por meio da abertura gradativa que se dava pela experiência pessoal no decorrer do dia, ou até mesmo dos anos, logo fossem capazes de apreender e entender a Palavra de Deus pela acolhida em seu interior; sendo assim, a Sagradas Escrituras era confrontada e se misturava com a própria vida, surtindo o efeito esperado com o alargar do espírito e o dilatar do coração.
Persuadido pelo exemplo e experiências anteriores de monges - que bem antes já viviam nos desertos - contatamos que em São Bento não fora diferente; o importante foi sempre manter o contato extenso e assíduo com as divinas Escrituras, ainda que sem muita compreensão no momento, mas certo de que feito na perseverança ia se revelando no coração o entendimento do mistério divino que consistia exclusivamente no confronto entre a leitura escrita com a realidade pessoal vivida como  garantia do desvendar das revelações de Deus.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Conhecimento por meio da Fé



Por Ir.Bruno Claudionor, O.Cist.*




Aos olhos de muitos, a mística especulativa desenvolvida durante a Idade Média pelos monges em seus conventos ou mosteiros, serviu apenas como pedra de tropeço para o crescente desenvolvimento filosófico-teológico-dialético neste mesmo período. Se por um lado esta concepção tem seu teor de verdade, por outro, está longe de corresponder a toda realidade. Com efeito, se é verdade e inegável que coube aos filósofos e teólogos dialéticos protagonizar toda atividade filosófica e teológica medieval, porque de fato, cabia a eles tal protagonização, não menos verdade é a importância e contribuição dada pelos místicos especulativos, seja pelos seus próprios modos de ser, de viver, seja pelos seus escritos.

Bernardo de Claraval, nascido no ano de1090 em Dijon, França, inseri-se nesta mística especulativa.

A fé enquanto saber seguro da realidade divina, segundo São Bernardo, vai constituir o alicerce do trabalho que se apresenta.

Bernardo não escreveu nenhum tratado especificamente sobre a fé, por isso, mesmo sendo toda sua obra considerada uma especulação mística, o que não é outra coisa senão o fruto de sua inabalável fé, fica difícil compreender a questão da fé como saber divino, fora daquela velha e conhecida problemática entre fé e razão que tão profundamente animou a discussão teológico-filosófica durante toda Idade Média. Por isso, seguindo um método de estudo, primeiro é dado ênfase ao pensamento de São Bernardo no contexto da Idade Média, e em seguida, é feito o aprofundamento do tema em estudo. Ciente dos nossos limites para esse trabalho e tentando responder às questões apresentadas, esperamos ao menos mostrar a importância do nosso estudo no alargamento e integração dos horizontes teológicos e na pesquisa sobre São Bernardo.  

Mestre por excelência da mística, São Bernardo mesmo pertencendo ao período pré-escolástico, rejeita completamente o método e a concepção de teologia e filosofia usados pelos filósofos e teólogos de sua época. Enquanto monge, ele escreveu primeiro para os “seus”. Porém, assim como suas atuações, os seus escritos, partindo de pressupostos universais, também ultrapassaram os claustros e atingiram os mais diversos públicos, desde o âmbito eclesial até à sociedade de um modo geral. Mas, ao rejeitar eficientemente o método dialético racional teológico-filosófico, qual método Bernardo usou para a construção de seu pensamento? Quais exatamente as linhas deste pensamento capaz de dar início a todo um movimento que se desenvolveu no curso dos séculos seguintes.  À primeira vista, ao menos assim parece tanto o método quanto o pensamento Bernardino relaciona-se com sua concepção de filosofia, que sendo decorrente da experiência claustral, é bem clara e diferente comparada com a dos filósofos de seu tempo. Diz ele: “A minha filosofia é conhecer Jesus, e Jesus crucificado”.  Sendo Deus para Bernardo a própria Sabedoria, este conhecer Jesus significa, pois, conhecimento ou amor a Sabedoria considerado indistintamente como busca da sabedoria, busca de Deus ou amor a Deus proporcionado pela fé:

“O que é Deus? Ele é ao mesmo tempo, comprimento, largura, altura e profundidade... Esse comprimento, o que ele é? A eternidade, pois esta é tão longa que não tem limites seja quanto o lugar, seja quanto ao tempo. É Deus também largura? E essa largura, que é ela senão a caridade que se estende até o infinito? Deus é altura e profundidade; e por essa altura deveis entender seu poder; e por profundeza, sua sabedoria. Ó sabedoria cheia de poder que chega a todos os recantos com força. Ó poder cheio de sabedoria que tudo dispõe com doçura”.

domingo, 29 de julho de 2012

O hesicasmo e a oração de Jesus




* * *


A comunidade apostólica, retomando uma tradição vétero-testamentária, dedicou, desde o início, uma atenção toda particular Ao Nome que o Filho de Deus assumiu no momento da Sua encarnação: JESUS, que significa ‘Deus SALVA’. Além disso, três textos colocam em evidência a veneração da Igreja primitiva para com o nome de Jesus: Fl 2,9-10; At 4,10-12; Jo 16,23-24.

Todavia, a Oração do Coração, enraizada no Novo Testamento, foi assumida por uma corrente própria da espiritualidade oriental antiga que foi chamada de hesicasmo. O nome provém do grego hesychìa que significa: calma, paz, tranquilidade, ausência de preocupação.

O hesicasmo pode ser definido como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa que busca a perfeição (deificação) do homem na união com Deus através da oração incessante.
Todavia, o que caracteriza tal movimento é, seguramente, a afirmação da excelência ou da necessidade da própria hesiquia, da quietude, para chegar à paz com Deus. Num documento do mosteiro de Iviron do Monte Athos, lê-se esta definição:

“O hesicasta é aquele que fala somente com Deus e reza sem cessar”.

Os hesicastas, inserindo-se na tradição bíblica, exprimiram a experiência da oração contemplativa através da invocação e da atenção do coração ao Nome de Jesus, para caminharem na Sua presença, serem libertados de todo pecado e permanecerem no suave repouso de Deus à escuta da Sua palavra silenciosa.

A história do hesicasmo começa com os monges do deserto no Egito e em Gaza. “A nós, pequenos e fracos, não nos resta outra coisa senão refugiar-nos no Nome de Jesus”, disse um deles. Depois, se firma com o mosteiro do Sinai, com São João Clímaco. Um expoente máximo é, seguramente, Simeão, o novo Teólogo. Renascerá no Monte Athos no século XIV.

sábado, 26 de maio de 2012

Aprender a rezar com os Salmos



A oração como parte integrante no mistério do Corpo Místico de Cristo





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Foi da tradição judaica que a Igreja – ou cristianismo – conservou o costume de rezar tendo como modelo os salmos. 

Jesus como um bom judeu também os repetiu em seus lábios quando recolhido para rezar, nas peregrinações, no templo, nas sinagogas até no momento crucial de sua passagem desse mundo no alto da Cruz. 

Em suma, toda a oração dos Salmos é um resumo do mistério de Cristo que se une a Sua Igreja, pré-anunciada desde antes pelos profetas numa perfeita relação com o povo da promessa antiga, até de se ver concretizada em Jesus em vista de Seu novo povo, nascido de Seu lado aberto pela lança. 

Assim repetimos com o salmista: 

“Tende piedade de mim, Senhor, porque desfaleço; sarai-me, pois sinto abalados os meus ossos. Minha alma está muito perturbada; vós, porém, Senhor, até quando?... Voltai, Senhor, livrai minha alma; salvai-me, pela vossa bondade” (Sl 6,3-5).

Para os que têm o hábito de rezar o saltério, seja em comunidade ou em particular, vemos aqui um salmo típico que se compreende pela súplica daquele que busca o socorro em uma grave doença.

É importante ressaltar aqui que, o mistério do Corpo Místico de Cristo une a comunidade dos batizados em um só corpo, onde Cristo é a cabeça. Os padecimentos de um só membro do corpo torna enfermo todo o restante, uma vez que estamos unidos por meio de Cristo. Sendo assim, por mais que as palavras do salmista acima citadas não me caibam naquele determinado momento, temos a certeza de que alguém – ‘no Corpo Místico’ – está passando pela mesma experiência, e dessa forma podemos emprestar nossa voz nos colocando no lugar de tal pessoa; Deus o sabe bem melhor que nós. 

Se por um lado se denota nos versículos do salmo apresentado acima a presença contida de um mal físico real, por outro ela pode ser também entendida como um mal no espírito, ou externo em outros casos, quando se refere à perseguição, como é o caso das menções de vinganças em que Deus vem em auxílio daqueles que n’Ele se confiam fazendo-lhes justiça e que são conhecidos como ‘precatórios’.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A fraqueza explicitada na Ressurreição: O olhar do Pai






Voltemos nosso pensamento ao tempo do exílio, onde o povo eleito da antiga aliança, a casa de Israel, ficou cativo em poder dos babilônicos por longos e longos anos. Imaginemos aqui o cenário de humilhações a que fora submetido em um país estrangeiro e pagão. Este povo, de fé sólida, apesar dos fracassos, saudoso de sua pátria, do templo, deslocado de sua terra, via-se atado no convívio com uma gente contrária a seus hábitos e costumes, sobretudo os religiosos, que era de onde buscava forças para continuar fiel ao seu chamado, e como forma de manter viva sua tradição, sem perder a identidade, diante do peso que o oprimia, sendo obrigado a realizar trabalhos penosos como escravo, numa terra de tormentos. Deus o humilhara. O clamor era visível em seus rostos cansados e envergados sob o peso das humilhações que duraram um pouco mais de quatro séculos, esmagados sob o poder que os aniquilava em suas convicções. Na certeza do merecimento de tantos males por causa de seus pecados e aceitos como penitência, não cessavam de implorar a Deus o socorro necessário à sua causa. A esperança era o seu alimento, ainda que Deus tardasse em socorrê-los. Estando como mortos, curvados sob a dor, Deus os conduzira aí para tocar-lhes o coração.
É neste cenário triste, permeado de sofrimentos, que surge a promessa de restauração desse povo, sinal antecipado do que entendemos hoje por ressurreição, aquela mesma trazida por Cristo. A profecia da restauração da casa de Israel se deu a partir de uma visão, a mesma que Ezequiel mencionou ter visto, um amontoado de ossos secos,[1] significando a vida sem alento desse povo que em terras estrangeiras[2] peregrinou entre a incerteza e a espera desse dia. Os séculos se passaram, muitos dos que desejavam ver o dia da restauração de sua gente já nem se encontravam vivos, passaram-se gerações.
Um dos temas que trata a visão é o do preenchimento dos ossos ressequidos com carne rejuvenescida. Acredita-se que pela ressurreição, as doenças, rugas, ou qualquer outro mal físico será extinto de cada pessoa, conformando-a, de uma vez por todas, a Cristo, como primícia dentre muitos que morreram,[3] em seu estado perfeito, como nova criatura; daí se entende algumas imagens do ressuscitado serem representadas com um aspecto mais jovem, para ressaltar esse mistério.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Chamados pelo Nome






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É evidente para todos que o ‘nome’ é de extrema importância, visto ser o mesmo revelador, aquele que identifica o ser como pessoa e o torna exclusivo, único, particular, dentre uma multidão dos, por assim dizer, constituídos seus semelhantes. Na experiência concreta do nosso quotidiano costumamos sempre ligar o fato à pessoa ou vice-versa, em se tratando daquele que se conhece, como sendo parte da identidade que ao longo do tempo foi-se revelando em sua característica de ser, ou seja, a formação de sua índole.

No plano espiritual o nome está sempre ligado para além do que podemos ver com os nossos olhos ou tocar com nossas mãos, e se autóloga por uma atitude de busca na compreensão do chamado interior que se define pela vocação (do latim: vocare) de cada pessoa, ou seja, seu verdadeiro lugar e missão no mundo. Foi assim para o povo da aliança primeira. O nome fazia parte de um acontecimento concreto na vida de cada pessoa, como também revelava o seu papel futuro diante da comunidade; assim, para os antigos, cada nome carrega o seu significado característico.

É no livro das revelações de São João, ou apocalipse, que encontramos:

“Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor darei o maná escondido e lhe entregarei uma pedra branca, na qual está escrito um ‘nome novo’ que ninguém conhece, senão aquele que o receber” (Ap 2,17).

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A condição humilde do Bom Pastor




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Para iniciarmos sobre este assunto que caracteriza a ideia de pastor, mas especificamente aqui, ao nos referirmos sobre a experiência que repousa da atitude espiritual daqueles que tem o múnus de guiar pessoas, pensemos a partir dessa imagem, no paralelo que possa existir com qualquer outro tipo de autoridade constituída, em suas diversas realidades e culturas, em torno de nosso mundo.

A ideia de pastor, é importante ressaltar, nasce da experiência dos povos antigos como nos faz saber o antigo testamento, que, obtendo através dos séculos de cultura no lidar com os rebanhos, não deixou que logo os influenciassem na linguagem em destaque, na relação que se dá entre ovelhas e seus guias, perfeita alegoria entre o cuidado do chefe de tribo com a sua gente.

Ao chefe de tribo, competia o governo de seus bens e a boa maturidade, geralmente um ancião, experimentado nos anos, que lhe garantissem a sabedoria para bem orientar sua gente quando ao mesmo era pedido que intervisse em assuntos de ordem comum.

Os pastores de rebanhos – em sua grande maioria – eram como que empregados contratados para exercer o serviço de zeladores do bem-estar dos animais confiados à sua guarda, sejam estes ovelhas, cabras, bois, etc, isso, quando seus donos eram considerados ricos e possuidores de muitos bens; o contrário, para os de condições menos favoráveis e própria subsistência, eram eles, os próprios donos ou alguém da família que exerciam este papel. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A "PAX" como convite e abertura à voz interna


PAX



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“O Senhor disse-lhe: Sai e conserva-te em cima do monte na presença do Senhor: ele vai passar. Nesse momento passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu; mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. Tendo Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o manto...”   1Rs 19,11-13a.


Estamos sempre a alimentar pelo desejo – e esse, advindo do mais profundo de nosso ser – para alguns, inconsciente, assinalado pela angústia na espera de algo que se faça presente e que por vezes não sabemos explicar; nisso constitui a busca incessante de noss’alma, desde o paraíso, e que por certo se torna a razão de nossa completude.

O salmista numa linguagem simples nos faz entender melhor esse anseio da alma quando disse: “Só em Deus repousa a minha alma, é dele que me vem o que eu espero” (Sl 61,6).

Para os que creem, qualquer que seja a orientação recebida, a espera é sempre pautada por meio de uma antecipação da visão, na qual se pode experimentar uma alegria sem explicação, ainda que sob véus aparentes, mas, com a certeza de que o momento certo virá. Essa experiência é típica dos que buscam de coração sincero pelas respostas à suas indagações internas e podemos constatar nos homens e nas mulheres, que, apoiando-se na fé, procuram avançar e chegar a bom termo nesta vida.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A Palavra que se fez carne



“Quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e Seu amor aos homens, não se fixou no que de bom havíamos feito, mas teve misericórdia de nós e nos salvou”  Tito 3, 4-5.



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Acompanhando os relatos contidos nas Escrituras sagradas, não é difícil a percepção de como Deus em toda história da salvação se mantém como o protagonista em iniciativas concretas, que buscam a todo custo inventar uma maneira por onde o Seu povo, por meio da reconciliação, continuasse sendo salvo.

No princípio, o chamado divino impetrado no coração do homem perfez a caminhada de fé – por meio da qual Deus se revela – rumo ao Ser supremo como o criador de todas as coisas, encontrando sua concretude no apelo interior feito um dia a Abraão, historicamente falando. É dessa figura ilustre, considerada como o pai de uma multidão de filhos por seu exemplo de fé incondicional à vontade divina, que se construíram os alicerces de um povo, marcado pelo encantamento tanto da ideia como da certeza alicerçada na confiança de um Deus supremo, onde, apoiados na esperança, marchavam rumo Àquele de quem provinha todas as coisas.

É por meio da fé que encontramos o ponto de partida compreensível da ascensão da alma a Deus, ainda que pelo mistério que a envolve, no que concerne ao âmbito espiritual/divino, para a formação das comunidades – quaisquer que sejam – congregadas por uma mesma comunhão de bens espirituais ou até mesmo materiais quando nos referimos ao esforço conjunto de bem comum; é desse passo, inerente à toda experiência religiosa no homem, que não poderia deixar de existir na história salvífica um protótipo mais perfeito que Abraão, como o foi bem mais fortemente acentuado ao povo da antiga aliança, estendendo-se também de forma singular e estreita na concepção das raízes cristãs, na qual se unem por uma mesma orientação de confiança.

É importante sublinhar que, quer no chamado interno à fé, ou ainda nos acontecimentos que giram em torno da comunidade alicerçada pela comunhão dos bens divinos, o protagonista é sempre Deus, que em tudo quer a participação de sua gente, como forma de colaborar consigo na construção do mundo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Espiritualidade dos Padres do Deserto





"Certa vez, perguntaram a um ancião o caminho que levava ao abade António...
'Na caverna de um leão vive uma raposa', respondeu ele".




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Os mestres cristãos do deserto floresceram, explodiram num ápice que durou três séculos, do III ao VI depois de Cristo. Constantino tinha restituído aos cristãos, pouco tempo antes, o direito a existirem, rompendo com o Dogma de Cómodo — Cristianous me éinai, os cristãos não são —, e subtraído com uma certa suavidade a jovem religião ao terreno espantosamente húmido do martírio, aos tempos incomparáveis das catacumbas.

Isto significava, evidentemente, entregá-la a esse perigo mortal que se manteve por dezoito séculos: o pacto com o mundo. Enquanto os cristãos de Alexandria, de Constantinopla, de Roma, regressavam à normalidade dos dias e dos direitos, alguns ascetas, aterrados com esse possível pacto, fugiam correndo, para se embrenharem nos desertos da Cétia e da Nitria, da Palestina e da Síria. Embrenhavam-se num radical silêncio que só alguns dos seus ditos conseguiram romper, bólides dirigidos a um céu insondável. Em verdade, a maior parte desses ditos foi pronunciada para nada revelarem, tal como a vida desses homens quis ser igual à vida de «um homem que não existe». («Dizia-se dos Cetiotas que se algum conseguia surpreender as suas práticas, ou seja, se alcançava o conhecimento das mesmas, tal não era considerado virtude mas antes pecado»).

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O voltar-se para dentro de si...



"Santo assassino"  




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Estamos acostumados a ouvir histórias de santos que desde a infância tiveram uma adesão humilde e forte à fé recebida em seu santo Batismo. Santos que se tornaram notáveis pelo amor incondicional à Igreja e ao próximo. Santos que gozavam de tamanha fé que lhes permitia operarem grandes milagres. Isto fez com que alguns encarassem a santidade como algo extraordinário, impossível de ser alcançado. Eis a razão pela qual muitos se escandalizaram quando foi encerrada a fase de informação diocesana e aberto o processo de beatificação de Jacques Fesch, jovem francês, condenado à prisão e finalmente executado na guilhotina há 53 anos, por ter matado um policial e ferido um funcionário de uma casa de câmbio numa tentativa de roubo.

Nascido em família rica, filho de um poderoso banqueiro belga, ateu e adúltero, indiferente quanto à formação religiosa de seus filhos. Não possuía gosto pelos estudos. Foi enviado à Alemanha para combater pelo exército francês. Depois de ter prestado serviço militar, foi-lhe arranjado um emprego com alto salário em um banco, sendo demitido após três meses. Levava uma vida mundana. Com fama de playboy, era dado à bebedeiras e frequentemente se envolvia com prostitutas. Casou-se aos 21 anos numa cerimônia civil com Pierrette Polack, filha da vizinha, que estava esperando um filho seu. Seus pais, antissemitas, não aceitaram o fato de sua nora ser filha de pai judeu. Não obstante o nascimento da filha, o jovem Fesch continuou a se encontrar com outras mulheres. Desses encontros nasceu Gérard, filho bastardo que foi entregue aos cuidados de um orfanato. Logo após, o casal se divorciou.

Inquieto e deprimido, pretendendo fugir das responsabilidades da família que, muito jovem, havia formado, decidiu empreender uma navegação solitária em redor do mundo. Pediu a seus pais a ajuda financeira necessária para comprar um barco e realizar tal viagem. Eles, não compreendendo a delicada situação emocional de seu filho, tendo-o por desequilibrado e ilusionista, negaram todo o apoio. A fim de conseguir recursos para o seu plano, acertou com o famoso cambista Alexander Silberstein a troca de dois milhões de francos por barras de ouro. No entardecer do dia 25 de fevereiro de 1954, dirige-se à casa de câmbio. Lá, apontou um revólver e exigiu a entrega do dinheiro que estava guardado na registradora. O cambista reagiu, sendo atingido com duas coronhadas na cabeça. Enquanto fugia com a quantia roubada, por meio de uma rua movimentada, deparou-se com um policial, Jean Vergne, de 35 anos, viúvo e pai de uma filha pequena. O policial, que havia sido alertado por alguém que estava a passar, de que aquele jovem havia assaltado uma casa de câmbio, ordenou que ele parasse e se entregasse. Hesitante, o jovem atirou três vezes, o que custou a vida do policial. Revoltada, a multidão começou a perseguir o assassino, que continuava a atirar, ferindo uma moça no pescoço. Finalmente, ele se rendeu e foi preso.


domingo, 16 de outubro de 2011

Evágrio Pôntico (sobre a oração)





Evágrio Pôntico - séc. IV


Traduzido por Jean Gouillard



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Originário da Capadócia, discípulo de são Gregório Nazianzeno, passou os últimos dezesseis anos de sua vida no Egito, como anacoreta.

Herdeiro dos grandes Alexandrinos, Clemente e Orígenes, ele cunhou, sob a nova forma da centúria espiritual, os princípios de uma mística decididamente intelectualista. A ascensão espiritual consiste em reintegrar a alma na «contemplação primeira», em que ela verá a Deus em si mesma, como num espelho. No caminho, o espírito - o noüs - terá de se despojar dos pensamentos apaixonados; depois, mesmo dos próprios pensamentos simples, até a completa nudez de imagens, de conceitos e de formas. A contemplação primeira será então realizada e, com ela, a oração perfeitamente pura, que é apenas outro nome daquela.

Evágrio conduz uma das grandes correntes da espiritualidade bizantina. João Clímaco, Máximo, o Confessor, Simeão, o Novo Teólogo, os Hesicastas, são seus herdeiros. Implicado na condenação do origenismo (em 553), acham desagradável citá-lo, mas ele penetra em toda parte: plagiam-no ou reproduzem-no, com o inconveniente de anatematizá-lo na passagem, como João Clímaco, por exemplo.

A Filocalia - deixando de Lado o bem Laborioso e às vezes pueril «Evágrio do pobre», assinado Teodoro de Edessa - apresenta quatro textos do Pôntico: Esboço da vida monástica (P.G. t. 40., cc. 251s.), Discernimento das paixões e dos pensamentos (P.G. t. 79, cc. 1199s.), Trechos escolhidos nos capítulos sobre a sobriedade (P.G. 40, Capita pract. passim) e finalmente, sob o nome de Nilo, Tratado sobre a oração (P.G. t. 79, cc. 1165-1200), ao qual nos limitaremos aqui, considerando de bem perto a preciosa interpretação do Pe. I. Hausberr, que é um «Evágrio comentado por ele mesmo».

Sem falar da oração do coração, Evágrio destaca, com insistência, um certo número de traços encontrados de ponta a ponta da Tradição: guarda do coração, despojamento do espírito; simplificação da oração; ilusões, imagens, formas etc.


2. A purificação, da alma, através da plenitude das virtudes, torna a disposição da inteligência inabalável e apta a receber o estado procurado.

3. A oração é uma conversa da inteligência com Deus: que estado não é, pois, necessário, para essa tensão sem retorno, para ir a seu Senhor e conversar com ele, sem nenhum intermediário?

4. Moisés, quando quis aproximar-se da sarça ardente, foi impedido de fazê-lo, até que tirasse os sapatos. E tu, que pretendes ver Aquele que ultrapassa todo pensamento e todo sentimento, como não te libertas de todo pensamento apaixonado?

5. Primeiramente, ora para obter o dom das lágrimas; assim, poderás suavizar, pela compunção, a dureza inerente à tua alma e, confessando tua iniqüidade contra ti, ao Senhor, obter dele o perdão.

9. Mantém-te corajoso e ora com energia; afasta as preocupações e as reflexões que se apresentarem, pois elas te perturbam e te agitam, debilitando o teu vigor.

10. Os demônios te vêem cheio de ardor pela verdadeira oração? Eles te sugerem, então, o pensamento de certas coisas, que te apresentam como necessárias. Depois, não tardam a avivar a lembrança que a elas se liga, levando a inteligência a procurá-las. A inteligência não as encontra, entristece-se profundamente e se aflige. Chegado o momento da oração, eles devolvem então à memória os objetos de suas buscas e de suas lembranças; assim, enfraquecida por essas associações, ela não, vai conseguir realizar a oração proveitosa.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A pureza de Coração






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É nas palavras de Jesus que podemos encontrar um melhor entendimento sobre a pureza de coração ao se dirigir ao povo em seu discurso no sermão da montanha.[1]

Em primeiro lugar, é importante ressaltar aqui o papel de Jesus ao considerar sua posição diante daqueles a quem se dirigia; Ele está no monte. Esta posição de Jesus sobre o monte, diante de uma multidão que o escutava, nos faz lembrar os antigos legisladores da lei, a saber, Moisés, conhecido como o grande legislador ou intérprete da lei divina, que reuniu o povo cativo em marcha para o lugar onde Deus mesmo havia indicado – a terra da promessa – embora não a tivesse conhecido.

Com toda a experiência vivida por aquele povo que O seguia – marcado pelo sofrimento e a dor – ao sublinharmos a consideração sob o contexto em que se econtrava, desfigurou-se ao longo dos séculos de história, notadamente pelo afastamento de Deus e as conseqüências desse desligamento que lhes são esperadas, a verdadeira imagem divina em seu coração já fatigado pela humilhação e o poder romano que o dominava. Desta real situação se confunde, quase como que imperceptível ante os olhos das massas, e se insurge – por assim dizer – como fato gritante, ainda que tênue, mas expressivo em seu real e profundo desejo de contemplação de Deus.

Assim nos apresenta Jesus seguido de seu discurso:

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus” (Mt 5, 8).

Ora, contemplar a face de alguém que reconhecemos haver uma estreita ligação, segundo os cuidados que recebemos ao longo do caminho é reconfortante e revigorador em nosso espírito, ou seja, da alegria da alma. Podemos citar o olhar da criança que a todo o momento busca e se alegra, ao reconhecer em seus pais o porto seguro de sua vida, que ao se criar por meio da presença reconhecida, a constatação de bem e prazer, o acolhem como o gozo de seu momento único.

Por certo, este mesmo prazer é a certeza que se estabelece para o desbravamento do mundo com a confiança devida em detrimento dos perigos que sua imaginação ou intuição aponta e que tem sua razão de ser no conhecimento superficial ou concreto do meio em que vive.

Um outro aspecto de compreensão do que vem a ser a ‘contemplação de Deus’ está ligado com a verdade, distanciada, apartada da hipocrisia, ou seja, está ligada àquela atitude capaz de detectar e aceitar aquilo que ‘é’ sem o prejuízo de nossas pré-concepções ou julgamentos, atrelados ao nosso pré-conceito sobre a real definição das coisas ou acontecimentos, etc.

Em outras palavras, ter o ‘coração puro’, “Capax Dei” (capaz de Deus), é estar sempre aberto em acolher aquilo o que de fato ‘é’ – ainda que envolto em seu problema característico – sem as nuanças da instabilidade de nossas vãs certezas, ou se preferir, de tudo aquilo que nos afasta de nossas experiências reais e concretas, somadas à verdadeira intenção de coração.

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus

Não podemos fugir à realidade de nosso pré-conceito (ou julgamento) sobre nós mesmos, sobre os outros e Deus, ao se tratar da real ‘visão do objeto que se almeja tocar’. Está aqui, a meu ver, mais uma vez, quase que como uma repetição, ao podermos identificar nessa atitude tão corriqueira em nosso dia-a-dia, como sendo o fundamento que nos impede da contemplação ‘real’ e ‘pura’ que se atrela ao apego desmedido da imaginação tão presente, encarnada e tentadora de nossos ‘achismos’.

Para os pais do deserto, a primeira batalha empreendida na vida espiritual começava sempre no terreno das imaginações, pelo fato de ser aí o espaço favorável da ação demoníaca que se esforça ininterruptamente[2] em nos confundir e distorcer a real imagem das coisas, de nós mesmos, dos outros e conseqüentemente de Deus.

No decorrer da caminhada monástica que tracei, ouvi uma vez um ancião monge e sábio dizer: “Quanto mais idealizamos Deus, mas Ele se afasta de nós tão grande é a Sua realidade”.

Na esfera de nossas relações com o próximo não lhe caberia aqui a mesma sentença, visto que o homem também é um mistério? No âmbito da natureza criada, constatamos a cada dia as surpreendentes conquistas e descobertas que parecem não estar finalizadas, visto que há muito mais a ser desvendado diante do grande mistério que é o mundo, mediante, é claro, uma busca sincera e benévola.

O fato é que, encontramos ao nosso redor a forma de exercitarmos na compreensão, ou então aceitação de nossos limites na apreensão do mundo onde nós mesmos estamos inseridos para só assim ascendermos ao conhecimento de Deus.

O primeiro lugar a ser reconhecido nessa busca é o próprio interior de cada coração com tudo o que existe aí, com toda a sua verdade, onde, como o ouro em meio aos vermes ou o diamante em sua forma bruta, ou ainda como uma linda flor que se desabrocha da lama ao revelar por meio desse fenômeno a presença misteriosa de Deus, que por vezes se encontra despercebido por conta de nossa negação.

Pois desta verdade temos a narrativa dos evangelistas Lucas e Mateus seguida de resposta do próprio Jesus: “Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes então: O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus está dentro de vós” (Mt 7, 20-21).

O Reino de Deus é o ápice por assim dizer do que vem a ser de fato o estado de Sua presença no homem; algo conquistado por meio de uma experiência íntima, e como o termo já o revela, engloba toda a vida do homem em sua particularidade.







By Maurus


[1] Cf. Mt 5, 1-48.
[2] Cf.1 Pd 5, 8.


quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A atitude que liberta






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É do conhecimento de todos que o mandamento se resume numa só palavra, e, universalmente falando, podemos dizer que a mesma é entendida em todas as experiências do homem, como por meio das mais variadas culturas existentes sobre o orbe, mencionadas em todas as línguas, e, que, encontra sua razão de ser no verbo “AMAR” (Dt 6, 5; Lv 19, 18; Mt 22, 37).

Sem dúvida alguma, quis a sabedoria divina através deste movimento, embora velada em seu mistério trinitário, resumir apontando nesta única palavra, a verdadeira raiz explicativa para o mal, conhecido de todos os tempos, e que, inconscientemente, passa despercebido pelo olhar conturbado de uma grande maioria. Numa primeira análise, todo o mandamento tem como ponto de partida, ou se quiser, como objeto primeiro o coração particular de quem o recebe, sendo que este mesmo está sempre em vista do convívio comunitário.

A verdadeira raiz citada acima é, sobretudo, o fato de imperar, no caminho que vamos traçando em nosso dia-a-dia, a má aceitação a tudo que nossas ações possam nos definir, em outras palavras, a tudo que de certa forma nos designa em nosso estado débil, com relação às dissensões entre nossa alma e nosso espírito.

Se o mandamento está no amor, encontramos aí o antídoto para todo o mal atrelado às ações deveras insubordinadas à nossa condição, e que sem equívoco algum passa pelo olhar de cada pessoa em sua particularidade, ao se confrontar com sua própria verdade, quer conscientes ou não. Pelo olhar criamos a possibilidade de bem ou de mal em vista do que vamos alimentando no coração, como: alegria ou tristeza, perdão ou ódio, bondade ou maldade, etc. No decorrer dos anos vividos a pessoa aprende desde seu nascimento a criar mecanismos de defesa que nem se tem consciência do porquê de suas manifestações presentes, mas elas estão aí, guardadas em algum lugar de nosso inconsciente, para reforçar a urgência de um olhar que permita entender o mais profundo de nossa verdade como forma de ascender à verdadeira liberdade.

Seguindo uma linha de pensamento proposta por Jesus a seus discípulos, nos deparamos com o Seu dizer: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará” (Jo 8, 32). Notemos que o mesmo transmite esta sentença, instantes depois em que lhe fora apresentado uma mulher, a qual fora surpreendida e acusada como adúltera; o relato como se dá este feito, que se tornara público, todos conhecem bem. Este discurso é antecedido por outras sentenças como: “Eu sou a luz do mundo...” (Jo 8, 12a) e ainda: “Vós julgais segundo as aparências; eu não julgo ninguém” (Jo 8, 15).

Evidentemente que para se alcançar a luz da verdade e do entendimento que jamais engana é preciso estar aberto à orientação que o Espírito vai engendrando em nosso interior ao longo do caminho; para os Pais do deserto não fora diferente. Como discípulos atentos a toda movimentação da ação divina dentro de si, foi-se concebendo o que O mesmo lhes inspirava, ou seja, uma total abertura e despojamento da fantasia que antes se fazia de si mesmo, ao acolher sua verdade nua e crua.

Uma das graças que se adquire com a intimidade do Espírito é que O mesmo conduz todo homem a situações de confronto, tal como aconteceu com Jesus quando fora conduzido para o deserto para aí ser tentado pelo demônio (Ver: Mt 4, 1).

Sem a luz que vem do alto corre-se o perigo de se perder para sempre diante da realidade obscura a que fomos acometidos pelo histórico de vida que nos acompanha e nos revela quem somos de fato, ainda que inconscientemente, no decorrer de nossa peregrinação neste mundo ao nos depararmos com o que existe de mais sombrio em nossas ações e desejos os mais secretos. O amor é um bem a ser salvaguardado de nosso próprio eu egoísta, que julga sem medida, acusa, impõe, distorce, manipula, subjuga e destrói, vetando a possibilidade de se enxergar de fato toda a verdade como ela é, talvez pelo medo ou vergonha de se descobrir inferior, ou ainda, o mais vil de todos.

Não se pode dá o passo para a verdadeira liberdade se não acolhemos com “AMOR” aquilo que a luz nos faz estar conscientes no momento. É daí mesmo que se constata que, o primeiro receptor do mandamento de “AMAR” é cada pessoa em sua particularidade específica, visto que não poderemos amar o nosso próximo senão somos capazes de fazê-lo por nós mesmos. Não significa aqui enfatizar pelo orgulho exaltado de um mal que não seja reconhecido, ao contrário, ao se inteirar do mal que o envolve esta pessoa se torna capaz, com a ajuda da graça, de aceitá-lo como seu e se reconciliar com ele.

Dessa experiência de amar a si mesmo se mistura àquela experiência de Deus já que não existe encontro no amor que não subsista ou venha d’Ele próprio.

O meio pelo qual podemos enfraquecer as forças do inimigo, e este pode vir a ser qualquer uma das sombras que de alguma forma tenham influência em nossas ações, em nossa realidade concreta – que não queremos sequer ter contato – é o caminho contrário, ou seja, o do confronto, e a partir daí o da reconciliação com o que existe de mais indesejado. Desta realidade podemos comparar com as exortações dadas por Jesus no sermão da montanha quando ao povo que o instruía lhes disse: “Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao seu ministro e sejas posto na prisão” (Mt 5, 25).

A cura do amor em nós é algo urgente, já que o seu enfraquecimento é deveras confundido ou sequer percebido em seu definhar, misturado aos enganosos conceitos de verdadeira vida de santidade e busca de Deus. Podemos apontar razões que nos indiquem o mal entendido entre amar de verdade, a começar fazendo atenção para os nossos julgamentos no dia. Tudo o que apontamos no outro é algo mal resolvido em si mesmo, que por não estar reconciliado, enxergamos no que está a nossa volta aquilo que nos é devido, em outras palavras, aquilo que deixei de amar e perdoar em mim mesmo, por isso ela se insurge no julgar o nosso próximo.

Sendo assim, é nos dirigida a exortação de Jesus:
Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos” (Mt 7, 1-2).

E noutro lugar, O mesmo nos interroga: “Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu?” (Mt 7, 3-4).
Para se perceber isso é preciso muita atenção e vida sob a guia do Espírito que nos esclarece todas as coisas. Alcançar a verdadeira liberdade requer atitude e coragem de se reconciliar com o nosso próprio eu, os nossos próprios fantasmas, que por certo nos aborrecem.






Exercício espiritual  
Na vida espiritual de cada pessoa que busca verdadeiramente a Deus – e esta segundo os pais do deserto, não se concretiza em sua forma a mais pura se não acontece no confronto consigo mesmo – é necessário que se estabeleça métodos regulares que nos ajudem no desenrolar de uma ‘união perfeita’ que reclame a consciência de nossos atos, deveras influenciados segundo nossa má inclinação.
Antigamente se falava muito no “exame de consciência”, o qual era recomendado fazer todas as noites antes do repouso noturno, o que não significa, embora não se ouça mais tanto sua menção hoje em dia, que essa prática tenha sido abolida em nosso tempo atual.  Conceder a si mesmo uma pausa durante a noite para recapitular tudo àquilo que possamos ter feito de mal durante o dia, e que por algum motivo tenha passado despercebido de nossa consciente atenção, seguramente irá nos ajudar a identificar em que mal insistimos permanecer – ainda que inconscientemente – como um convite a reconciliação sincera de suas repetidas falhas.  

# Este é o ensinamento deixado como herança pelos nossos antigos pais na fé.


                                                                                            By Maurus

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