"A escada para o Reino dos Céus está escondida em tua alma. Mergulha para dentro dos pecados que estão em ti mesmo e, assim, encontrarás ali uma escada pela qual poderás ascender" Isaac de Nínive.
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Obs.: Abaixo, tradução do versículo bíblico para outras línguas:

"POR ISSO A ATRAIREI, CONDUZI-LA-EI AO DESERTO E FALAR-LHE-EI AO CORAÇÃO" Oséias 2,16
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domingo, 25 de outubro de 2015

Santa Hildegarda de Bingen: Médica dos Corpos e das Almas





Dotada de um carisma excepcional, a envergadura de sua obra vai desde a descrição de plantas e minerais, inclui a medicina, e atinge a mais elevada teologia e contemplação mística. Sua vida foi a composição de uma verdadeira "sinfonia divina".

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Naqueles dias primevos da Criação, o Senhor manifestava generosamente a sua onipotência e se comprazia em tirar do nada as incontáveis maravilhas que compõem o Universo. Quando a luminosidade do sol já marcava o decurso do dia e o colorido das plantas adornava a singeleza da terra, Ele exerceu sobre este elemento seu poder criador e ordenou: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra" (Gn 1, 26).

Assim, era na elevada condição de realeza que a obra-prima saída das mãos de Deus despertava para o conhecimento das realidades exteriores. Cada um dos seres vivos, e até mesmo os elementos, estavam a seu serviço, dispondo instintivamente o requinte de suas qualidades ao beneplácito do homem racional. Nisto estava a glória do Pai: em que, utilizando- se daquela multidão de criaturas, Adão fosse feliz e restituísse ao seu Criador o bem, a verdade e a beleza, reconhecendo-as como postas por Ele na admirável ordem do Universo.

O pecado rompe a harmonia

Mas... que triste estrago veio fazer o pecado original no estado de perfeição do primitivo casal! Expulsos do Paraíso, voltaram para a terra de onde foram tirados e tiveram de comer o pão com o suor de seu rosto, perdendo aquele domínio absoluto sobre as criaturas do qual gozavam no Éden. Contudo, em sua insondável misericórdia, Deus não destituiu o gênero humano da supremacia e precedência que lhe havia conferido. Quis que nele permanecesse a capacidade de utilizar-se de todos os seres e descobrir as valiosas propriedades encerradas em cada um dos elementos a seu serviço.

Até hoje, os filhos de Adão não esgotaram as possibilidades das criaturas que o cercam, e quão longe estão de fazê-lo! Chegam-nos todos os dias notícias surpreendentes acerca das descobertas feitas ao redor do mundo nas quais, por vezes, de causas singelas tiram-se efeitos assombrosos. O lado triste deste fato é que em nossa época o homem endureceu seu coração na busca desenfreada da ciência, omitindo culposamente para si mesmo e para os demais que, se algo há que possa estar na raiz dessas descobertas, são os dons do próprio Deus.

Não é nesta perspectiva que a Igreja forma seus filhos, e nem assim pensaram os santos. Quem se aproxima, por exemplo, da extraordinária figura que foi Santa Hildegarda de Bingen, muito em breve dá graças ao Pai "porque escondeu estas coisas aos sábios e prudentes, e as revelou aos pequeninos" (Lc 10, 21).

Nasce uma menina predestinada

Num agradável dia do verão de 1098 nascia no castelo de Böckekheim, na região do Reno, o décimo filho do casal Hildebert e Matilde de Bermersheim. Era uma encantadora menina, batizada com o nome de Hildegarda. Apesar da frágil saúde, dava ela - desde os primeiros anos de existência - mostras de aguda inteligência e inclinação religiosa.
A Providência quis ainda muito cedo atrair para Si esta angélica criança, que já aos três anos de idade era favorecida com luzes e revelações celestes. Pensando que todos recebiam igual sorte de favores, comentava entusiasmada a beleza do que via, causando estupor e maravilhamento nos que a ouviam.

Certo dia, caminhando com sua aia pelas redondezas do castelo, exclamou radiante: "Veja aquele bezerrinho, como é bonito! Todo branco, tem manchas apenas na cabeça e nas patas. Ah! tem uma também no lombo!" A criada, olhando para os lados e nada vendo, perguntou-lhe onde estava o bezerro. Sem compreender como ela não via o animalzinho, a menina apontou uma grande vaca e disse incisiva: "Está ali! Está ali!" Perplexa, a mulher pensou estar ouvindo mais uma fantasia infantil e, em tom de gracejo, contou o sucedido à mãe de Hildegarda. Entretanto, algum tempo depois nasceu um bezerro e ninguém mais riu: possuía exatamente o aspecto predito pela menina!

domingo, 21 de junho de 2015

Livro: Inclina o Ouvido do Coração



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A Capa

FILHO PRÓDIGO A imagem por si mesma já nos diz tudo, segundo o tema apresentado no livro. Aprouve-nos, desta, enfatizar o abraço do pai no acolhimento de seu filho, que retornara de uma vida pautada pela experiência do sofrimento e do abandono. 

Desta mesma, observamos a estreita proximidade do Ouvido do filho que repousa sobre o Coração de 'seu pai', reflexo daquele inclinar que vem do mais profundo do interior de seu coração, atento – pela reconciliação – a tudo que a voz do mesmo lhe ordenasse cumprir. 

A experiência vivida pelo filho que partira, culminara, por sua vez, em sua passagem ao deserto, momento pelo qual pôde confrontar-se consigo mesmo, pelo reconhecimento e aceitação sincera de suas faltas até chegar ao arrependimento que o reconciliaria com 'O Bem', antes desprezado.


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Introdução

Diante de uma realidade marcada pelo individualismo, como se apresenta os nossos dias, urge o sair de nosso comodismo que nos aprisiona na esfera de nossas ideias, as mais apegadas, e confundidas por vezes como verdade absoluta. 

Passaram-se mais de 1500 anos de história e as palavras do grande patriarca São Bento, que viveu em um período parecido com o nosso – apesar das limitações contextuais e culturais da época – se tornam até os nossos dias como sendo válidas e atuais em sua regra, ecoando como um forte meio de orientação e exemplo, numa abertura que se dá para os acontecimentos hodiernos, para tudo disposto à nossa volta, como de sua mensagem característica, que de certa forma nos exercita para aquele atender do coração e seu movimento. 

O grande motivo a que esta se debruça, é para o confronto com a realidade atual, no intuito de se pôr paralela à compreensão da vontade de Deus, que não é senão o querer da plena realização do homem, de seu chamado específico, sob os seus vários aspectos e aspirações, em vista da construção de uma sociedade baseada na verdade, a qual nos inspira e garante Sua Palavra. Para este fim, faz-se mister a disposição para a “Escuta”, como encontramos na orientação dada por São Bento, aos que militam sob sua paternidade espiritual, já no início de sua regra.

Este apelo para a “Escuta” permeia toda a instrução de São Bento, percebida na regra do começo ao fim, e subentendida por vezes pela “obediência”, como forma de fazer inculcar na mente e no coração de seus discípulos, a importância que a mesma se deve dar, como primeiro passo para o galgar do entendimento da vontade divina que se dá no chão de nossa história, quer pessoal ou comunitária, passando pelas experiências externas como preparação do terreno interior, que é o coração de cada homem. 

domingo, 12 de abril de 2015

As duas Grandes Misericórdias divinas




[Do tratado de São Bernardo, abade, sobre os graus da humildade e da soberba (N. 12: EC 3, 25-26)]



Se compreendes que Cristo tem duas naturezas em uma só pessoa, uma pela qual sempre existiu e outra na qual começou a existir, e que segundo seu ser eterno ele conhece todas as coisas desde sempre, mas segundo seu ser temporal conheceu muitas delas de maneira temporal, por que hesitas em admitir que, assim como ele começou a existir encarnado no tempo, começou também a conhecer as misérias da carne, por aquele tipo de conhecimento que a fraqueza da carne proporciona? Nossos primeiros pais eram mais sábios e felizes ignorando este tipo de ciência, que só puderam adquirir por um gesto de lamentável loucura. Mas Deus, seu criador, buscando o que havia perecido, compadeceu-se e proseguiu sua obra, descendo cheio de misericórdia até os que haviam caído miseravelmente.

Quis experimentar em si mesmo aquilo que mereceram sofrer por terem agido contra Ele, contudo, não pela mesma curiosidade, mas por uma admirável caridade. E não para permanecer infeliz entre os infelizes, mas para se fazer misericordioso e libertar os miseráveis. Fez-se misericordioso, não daquela misericórdia que já possuía em sua eterna felicidade, mas da que obteve através da infelicidade, em nossa condição humana. Assim, a obra de amor que iniciara com a primeira forma de misericórdia, completou-a com a segunda. Não que aquela não bastasse para realizá-la, mas porque sem esta ela não seria suficiente para nós. Ambas são necessárias, porém a segunda nos foi mais conveniente.

Ó inefável lógica do amor! Como imaginar essa admirável misericórdia que não se forma de uma miséria anterior? Como reconhecer essa compaixão para nós desconhecida que não foi precedida pelo sofrimento, pois que é eterna em Deus como sua impassibilidade? Entretanto, se essa misericórdia divina que ignora a miséria não estivesse na origem, a outra, que tem por mãe a miséria, não teria acontecido. Se não tivesse acontecido, não nos teria atraído; se não nos tivesse atraído, não nos teria livrado. E de onde nos terá livrado, senão do lago de miséria e do brejo lodoso (Sl 39, 3).  

Deus não abandonou sua primeira misericórdia, mas acrescentou-lhe a segunda. Ele não mudou e sim multiplicou, como está escrito: Salvas os homens e os animais, Senhor, como multiplicaste, ó Deus, a tua misericórdia! (Sl 35, 7b-8 Vg)


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Surgimento dos Padres do Deserto - Resumo


Montagem criada Bloggif 

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Paulo de Tebas é geralmente creditado como tendo sido o primeiro monge eremita a ir para o deserto, mas foi Santo Antão que efetivamente lançou o movimento que se tornaria conhecido de todos como os Padres do Deserto. Em algum momento por volta do ano de 270 d.C., Antão ou Antônio ouviu um sermão de domingo afirmando que a perfeição poderia ser alcançada vendendo-se todas as posses, doando o resultado disto aos pobres e seguindo Cristo (tratando de Mateus 19,21 parte dos conselhos evangélicos). Ele aceitou a mensagem e tomou ainda o passo adicional de se mudar para o deserto para buscar a mais completa solidão.

Antão viveu num tempo de transição para o cristianismo - as perseguições de Diocleciano em 303 d.C. foram as últimas grandes perseguições formais aos cristãos no Império Romano. Apenas dez anos depois, ele foi legalizado no Egito pelo sucessor de Diocleciano, Constantino I. Aqueles que tinham partido para o deserto formavam uma sociedade cristã alternativa ao martírio, que era na época visto por muitos cristãos como a forma mais alta de sacrifício. Nesta mesma época, o monasticismo no deserto apareceu quase simultaneamente em diversas áreas, incluindo o Egito e a Síria.

Com o passar do tempo, o modelo de Antão e outros eremitas atraiu muitos seguidores, que viviam a sós no deserto ou em pequenos grupos. Eles escolheram a vida de extremo ascetismo, renunciando a todos os prazeres dos sentidos, ricas comidas, banhos, descanso e todos os demais confortos. Milhares se juntaram a eles no deserto, a maioria homens, mas também um punhado de mulheres. As pessoas começaram a ir para o deserto em busca de conselhos e recomendações dos primeiros Padres do Deserto. Quando Antão morreu, havia tantos homens e mulheres vivendo no deserto que ele foi descrito como uma "cidade" pelo biógrafo de Antão, Atanásio de Alexandria.

Três principais tipos de monasticismo se desenvolveram no Egito ao redor dos Padres do Deserto. Um foi a vida austera do eremita, como praticado pelo próprio Antão e seus seguidores no Baixo Egito. Outro foi a vida cenobítica, comunidades de monges e freiras no Alto Egito formadas por São Pacômio. O terceiro foi uma vida semi-eremitíca vista principalmente na Nítria e em Scete, a oeste do Nilo, iniciada por Santo Amum. Estes últimos eram pequenos grupos (de dois a seis) de monges e freiras com um ancião em comum - os grupos separados se reuniam em aglomerações maiores para a celebração dos sábados e domingos. Este terceiro grupo monástico foi responsável pela maior parte dos ditos que foram compilados na obra "Ditos dos Pais do Deserto". 


Desenvolvimento das Comunidades Monásticas



As pequenas comunidades que formaram em torno dos Padres do Deserto foram o início do monasticismo cristão. Inicialmente, Antão e outros viveram como eremitas, formando ocasionalmente grupos de dois ou três. Pequenas comunidades informais começaram a se desenvolver até que o monge Pacômio, percebendo a necessidade de uma estrutura mais formal, estabeleceu um mosteiro com regras e uma organização. Seu regulamento incluía disciplina, obediência, trabalhos manuais, silêncio, jejuns e longos períodos de oração - alguns historiadores veem nestas regras como tendo sido inspiradas nas experiências de Pacômio como soldado.

O primeiro mosteiro totalmente organizado sob Pacômio incluía homens e mulheres vivendo em quartos separados, até três pessoas em cada. Eles se apoiavam tecendo e fazendo cestos, além de outras tarefas. Cada novo monge ou freira tinha um período probatório de três anos, que terminava com a aceitação completa no grupo. Todas as posses eram mantidas comunitariamente, as refeições eram feitas em conjunto, em silêncio. Duas vezes por semana jejuavam e se vestiam com roupas simples de camponeses, com um capuz. Diversas vezes por dia se reuniam para rezar e para as leituras, e se esperava que cada um dedicasse períodos de tempo sozinhos, em meditação sobre as escrituras. Havia também programas específicos para os que chegassem ao mosteiro sem saber ler.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A Experiência como via de acesso à Hokmah - Sabedoria!


Por Ir. Plácida Maria Ramos Lima, OSB*



Falar sobre a Experiência e a Hokmah é deter-se numa reflexão aberta para o mundo antigo, uma vez que buscar a sabedoria é algo generalizado no antigo Oriente, tanto nos escritos sapienciais bíblicos assim como também nos extra-bíblicos (Vocabulários de Teologia Bíblica, Trad. Simão Voigt, 1977, p. 915).

Quando se fala da Experiência e da Hokmah, supõe-se uma Sabedoria prática, arraigada de uma moral e de uma ética, que de certa forma exige uma reflexão sobre a vida – do modo pelo qual o ser humano pode adquirir a prudência e a habilidade para ser feliz (Vocabulários de Teologia Bíblica, Trad. Simão Voigt, 1977, p. 915). Ceresko afirma que a Sabedoria é extraída da vida diária (2004, p. 7); igualmente pode-se dizer que a Sabedoria, “na sua origem, não vem de um ensinamento de fora, mas nasce de dentro”. “Vem da prática e da luta do povo”. “Nasce da própria vida do grupo”. “Cresce lentamente a partir da Experiência” (CRB, Tua palavra é vida. 1994, p. 19). Há uma ligação entre ambas. A Experiência sempre inaugura algo novo no cotidiano pessoal, e aponta para o crescimento humano sapiencial. Pode acontecer também que a Experiência se confunda com a banalidade quando se relativizam as coisas, os acontecimentos, distanciando-se, portanto, da reflexão que induz o pensamento humano a uma moral, à Sabedoria.

A Sabedoria nasce com os provérbios. O chão do povo é a Sabedoria popular.  (Tua Palavra é vida. 1994, p.17). Atrelada à Experiência está também a Hokmah nas diferentes culturas. O autor Ceresko nomeia a Índia como um lugar original e complexo, um foco de centros de ensino da Sabedoria cumulada há milhões de anos. O líder Gandhi centrava sua vida na Sabedoria antiga. Ensinava aos seus seguidores a buscar a própria Experiência como fonte de Sabedoria (Ceresko p. 7). Na Grécia, no século VI a.C., a Sabedoria tornara-se filosofia, ciência embrionária, de onde parte as técnicas que se desenvolveram ao longo do tempo, ao ponto de se tornar o elemento importante da civilização, o “humanismo da antiguidade”. (Vocabulários de Teologia Bíblica, Trad. Simão Voigt, 1977 p. 917).

Em Jesus Cristo, o sábio por excelência, está contido a Experiência e a Hokmah. Em Lc 10, na parábola do “Bom samaritano”, estão presentes duas realidades: a Experiência e Hokmah. Alguém pergunta a Jesus quem é o seu próximo. Parafraseando Ceresko, Jesus não vai buscar a lei de Moisés e os profetas para dar uma resposta a quem pergunta, mas desperta os ouvintes para uma aventura: a da caridade, de não estar preso às leis, mas ao valor maior, a vida humana. Eis o caminho que a Sabedoria sempre percorreu desde os tempos mais remotos: ‘a aventura de mergulhar no mundo do outro, num mundo de certa forma espiritual’ (Ceresko, p. 8).

A espiritualidade sapiencial do povo de Israel nasce no viés do cotidiano. Não vai ser diferente a de outros povos, pelo contrário, o curso sapiencial traz em comum a sapiência do mundo antigo, desde o desenvolvimento da escrita há 3000 anos a.C., na Mesopotâmia e depois no Egito (Ceresko p. 8-12). É neste contexto que a Hokmah de Israel se desenvolve. Muitas questões abordadas nos escritos pagãos do Egito e Mesopotâmia versam sobre assunto similar – “o sofrimento dos inocentes e a justiça dos deuses” em paralelo com o justo Jó (Ceresko, p. 23).

Contudo, a base da Sabedoria de Israel é pura, assinalada pelo temor a Javé. Ela brota da Experiência, cujas raízes exprimem-se na Sabedoria humana, e esta, por sua vez, se conforma à Sabedoria de Deus. “Esta Sabedoria divina, presente em tudo desde a criação do mundo, começa a ser utilizada como critério para ajudar o povo a discernir os sinais de Deus na vida e na história” (CRB, Sabedoria e poesia do povo de Deus, 1993 p. 14). 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Espiritualidade e Análise da Íris - Iridologia





“Os olhos são a lamparina do corpo. Se teus olhos forem bons, todo o teu corpo será cheio de luz”  Mt 6,22.

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Os antigos gregos, bem antes de nossa era, já mencionavam a relação do corpo com a íris dos olhos. Para ser mais preciso podemos mencionar Hipócrates, 460 a.c, que é conhecido por muitos como uma das figuras mais importantes da história da saúde, frequentemente considerado como o ‘pai da medicina’. 

O impressionante disso é que Jesus não ficou alheio a essa informação de conhecimento dos males físicos e psíquicos pela observação dos olhos, nem tampouco deixou de mencionar sobre o assunto no contato com os seus discípulos.

Discorrendo sobre a referência bíblica acima, Jesus se dispõe a dar, aos seus discípulos, vários conselhos e ensinamentos, dentre estes faz menção sobre a candeia (lamparina) do corpo. São ensinamentos referentes à vida espiritual, sobre o modo de proceder no convívio com os outros, comportamentos, bem como sobre a atenção e o cuidado fisiológico de cada pessoa, ou seja, houve um interesse por parte de Jesus para com o homem em sua forma integral e que de certa forma se resume neste assunto específico. 

É importante ressaltar que Jesus dá sequência ao sermão da montanha. Portanto, ele se encontra sobre o monte. O evangelista Mateus se utilizará dos capítulos V, VI e VII, de seu evangelho, para enumerar o teor das sentenças e ensinamentos do jovem nazareno. Para a cultura judaico/cristã, estar sobre o monte é estar na posição de quem legisla, daquele que está capaz de transmitir Sabedoria. Aqui Jesus se apresenta e é reconhecido como Mestre, à semelhança de Moisés que recebera de Deus o encargo de transmitir a sua Lei no Horeb, aquele que orienta o seu povo em vista do Reino dos céus, inaugurado com a sua vinda em meio aos homens.

Para entendermos melhor em que contexto se encontra este enunciado bíblico podemos ler, a seguir, a listagem de seus ensinamentos e conselhos, a começar pelo sermão das beatitudes:

- As Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12);

- O sal da terra e a luz do mundo (Mt 5, 13-16);

- O cumprimento da Lei (Mt 5, 17-19);

- A justiça nova, superior à antiga (Mt 5, 20-24);

- Reconciliação com o adversário (Mt 5, 25-28);

- Evitar a ocasião de pecado (Mt 5, 29-30);

- O divórcio e o juramento (Mt 5, 31-37);

- A Lei do amor contrária à lei do Talião (Mt 5, 38-42);

- O verdadeiro amor (Mt 5, 43-48);

- A esmola dada em segredo (Mt 6, 1-4);

- A oração feita no recolhimento (Mt 6, 5-6);

- O Pai nosso (Mt 6, 7-15);

- O jejum realizado em segredo (Mt 6, 16-18);

- O verdadeiro tesouro (Mt 6, 19-21);

- O olho como a candeia do corpo (Mt 6, 22-23);

- Deus e o dinheiro (Mt 6, 24);

- Se abandonar à providência (Mt 6, 25-33);

- Não julgar ninguém (Mt 7, 1-5);

- Não profanar as coisas santas (Mt 7, 6);

- A eficácia da oração (Mt 7, 7-11);

- A Regra de ouro (Mt 7, 12);

- Os dois caminhos (Mt 7, 13-14);

- Os falsos profetas (Mt 7, 15-20),

- Os verdadeiros discípulos (Mt 7, 21-27). 

Houve, por certo, um atrativo peculiar por parte das palavras proferidas por aquele homem simples da Galileia, que fez com que aquela multidão não se importasse com o calor do dia e se debruçasse à escutá-lo. O atrativo se deu pelo fato de que suas palavras eram contextualizadas, confrontadas com os reais anseios daquele povo, portanto, eram-lhes úteis, eficazes, propícias, tudo o que necessitavam para continuar tocando suas vidas na esperança de um novo tempo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A glória do cristão - A Mística da Cruz.



“Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” Gl 6, 14.



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Entre os judeus a Cruz era bem conhecida... tratava-se de um instrumento de suplício para os condenados da época, uma forma de punir os malfeitores daquele tempo; diríamos hoje que seria o resultado da sentença de pena de morte como é para alguns países ainda existente em nossos dias. Era um instrumento que causava pavor, inibia de alguma maneira as inclinações más contidas nas ações humanas, daquele contexto específico, e que numa linguagem espiritual e universal era inserida também os homens de todos os tempos, os de ontem, os de hoje e os do futuro.

É sempre a mesma realidade simbólica, podendo ser interpretada de acordo com as múltiplas experiências do homem no orbe. Ao mencionar o simbolismo que esta implica podemos dirigir, apontar esta realidade para aquela propriamente dita que é a Cruz como matéria física, mas também aquela espiritual que é vivenciada de forma mais concreta e contempla qualquer que seja o infortúnio interior de angustia, dor e de certo modo nos persegue, ao revelar em nós o nosso ser profundo ou quem de fato somos.

Ainda hoje a Cruz, deveras, nos causa pavor, algo até inconsciente, indesejada e imperceptível de glória alguma, contrário a ideia de glória que concebemos e conhecemos atrelada ao prazer palpável e até mesmo estético daquilo que possa nos atrair os sentidos pela contemplação, admiração, a mesma apresentada segundo os vários e grandes nomes da filosofia.

Contraposta a essa ideia, os padres do deserto viviam e sempre instruiu os seus discípulos a não se gloriar de nada, de forma alguma, visto que a ‘glória’ é degrau propício para a soberba do engano sobre qualquer comparação alheia. Há, no entanto, uma única glória para os cristãos, cantada pela Igreja, repetindo os mesmos sentimentos do apóstolo ao escrever à comunidade dos Gálatas, a qual no tempo da quaresma ressoa propício aos nossos ouvidos, e, que de certo, revela a profundeza do mistério de nossa salvação contida na Cruz:

“Quanto a nós, devemos gloriar-nos da Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, que é nossa salvação, nossa vida, nossa esperança de ressurreição e pelo qual fomos salvos e libertos”.

Na Cruz está contida toda a pessoa humana. Dizer como o profeta que Ele, Jesus, carregou sobre si nossos males é seguramente professar o cerne de toda a espiritualidade cristã. A glória da Cruz é sem dúvida alguma o mérito que esta recebeu de aí ser cravado o autor da vida, fruto do seio de uma virgem que se compreende também como sendo o verdadeiro fruto desta árvore agora bendita.

Ora, dizer que a glória do cristão parte desta realidade de fracasso é o mesmo que se colocar no lugar de todo homem que de alguma forma padece de algum mal, quer físico, psicológico ou espiritual, tal como fez Jesus, mas a partir de um olhar que contemple a si mesmo em primeiro lugar, com toda a realidade de frustração e misérias que serão transformadas pelas atitudes de amor e compaixão em vista do próximo.

domingo, 19 de outubro de 2014

O Deserto como espaço ininterrupto do SER.



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As falas sobre deserto soam para alguns como uma composição poética e espiritualista... para outros é simplesmente um lugar, um espaço diferente de tantos outros lugares, característico, no meio do nada, onde sobressaem a realidade que lhe é própria: animais peçonhentos, tempestades de areia, sol escaldante e frio estabilizador. Fábulas, mitos, revelações, miragens, bem como aparições atreladas às fantasias das mais atraentes e por vezes enganosas são relatadas de forma as mais diversas com o intuito de transcendência do mistério que aí se desdobra, e que compreensivelmente enchem por certo os olhos daqueles que são atraídos por narrações de acontecimentos espirituais elevados. O deserto é sem dúvida alguma o cenário dos grandes acontecimentos e desfechos, marcando assim a experiência de quem se permite atravessá-lo como algo inusitado e eterno.  

A verdade é que o deserto traz em si mesmo o fascínio que lhe é peculiar, assim também como a sua realidade de terror momentâneo, para quem lhe escapa, e de perda para quem lhe é ferido de morte, o que lhe é bem mais adequado.  Há de alguma forma quem se veja aí, sob estes dois polos, e se identifique com todas as realidades mencionadas acima, ou aquelas que por ignorância me esquivei de mencionar. 

Por mais simples que seja o mistério que o rodeia é ainda muito maior, vai muito além do que a linguagem possa captar e externar, e só poderá ser compreendido em sua totalidade quando o ser for de fato confrontado com a nossa individuação.  Sendo assim, não seria estranho dizer ou até mesmo afirmar que ‘o Deserto é o espaço do SER’; é lugar por excelência onde a pessoa pode ‘SER’ de fato, sem máscaras, tal como se é, originalmente.

“No deserto somos quem somos... Não há como camuflar o ‘SER’ em vista de nossa vaidade e orgulho”

Por mais que queiramos ficar estacionados pela escolha de ficar fantasiando a realidade deste espaço tão distinto de tantos outros, a sua realidade nos remete a nossa real verdade e isso pode nos atingir até às bases de nosso profundo mistério, e que se esconde em Deus. 

Ao pensarmos no significado do termo ‘DESERTO’, e sua implicação, nos advêm duas realidades distintas: em primeiro lugar a ideia de deserto como concebemos, lugar ermo, inóspito, concreto, material, etc., e que se caracteriza em algo palpável, físico; o segundo é o da imanência, ou seja, da realidade que vai para além daquilo que se pode ver e tocar e que está no âmbito da espiritualização. Se por um lado temos a imagem do deserto físico, atrelado a este há também uma realidade para além do nosso entendimento e que se funde nas realidades interiores do quotidiano de cada ser. Uma jamais poderá ser compreendida sem a conotação que a outra implica e vice versa.

O deserto é o lugar da verdade, da verdade sobre mim mesmo, em primeiro lugar, que se une a todas as verdades, ao olhar para a humanidade inteira no orbe. No deserto nos deparamos com as nossas falsas fantasias de nós mesmos, somos o que somos sem a pressão que a sociedade de todos os tempos, ao longo dos séculos, fora construindo como sendo o padrão de vida ‘aceitável’.  É justamente aí, no deserto que nos apresentamos diante de Deus como de fato somos e não pode haver enganos de pessoa, ou seja, é aí mesmo no deserto onde O mesmo se deixa ser amado e pode amar na verdade, pois este mesmo jamais se deixa ser encontrado quando o engano é a vestidura de toda uma vida marcada sob o peso de ser quem não é.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A Cruz como caminho de individuação



 A Cruz como imagem do ser humano redimido*




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Em seus escritos, Carl Gustav Jung se voltou constantemente para o tema da cruz e vê na cruz um caminho da individuação, da autorrealização humana. Jung não escreve sobre a morte de Jesus na cruz, mas sobre a cruz como símbolo. O símbolo da cruz desempenha um papel importante no processo de individuação do ser humano. No curso de sua vida, cada ser humano precisa passar do Ego, que é o âmago consciente de sua pessoa, para o Self, o centro mais íntimo da pessoa, que inclui simultaneamente o consciente e o inconsciente. Nesse caminho da individuação, os símbolos têm uma tarefa especial. Jung refere-se aqui não apenas a símbolos, mas a imagens arquetípicas que são disponíveis na alma do ser humano e que desencadeiam e dirigem o processo da individuação.

Para Jung, Cristo e a cruz estão entre estes arquétipos que podem transformar o ser humano. Cristo é o símbolo mais desenvolvido do Self. É claro que Jung não dissolve o Jesus histórico numa imagem arquetípica. Também para Jung, Jesus foi uma figura histórica. Mas, ao mesmo tempo, ele apelou ao arquétipo do Self que está disponível na alma e o tornou ativo.

A cruz desempenhou um papel importante no caminho da transformação de Jesus. Também nosso caminho da individuação passa pela cruz. A cruz tem para Jung vários significados no processo de individuação. Em todos os distintos aspectos da cruz, trata-se para Jung sempre do efeito sanador e centrador sobre o Self do ser humano.

Por um lado, a cruz é um símbolo do sacrifício. Jung entende sob sacrifício o abandono do Ego em favor do Self e a renúncia à determinação pelos instintos, a transformação da libido. No sacrifício, o ser humano abandona-se a Deus. Para poder se entregar a Deus, o ser humano precisa primeiro conhecer-se a si mesmo. Por isso, o sacrifício é sempre antecedido por um ato de autoexame. A instância do ser humano que sacrifica algo do Ego é o Self. Ao sacrificar o Ego, o Self ganha a si mesmo. A cruz como sacrifício é, para Jung, ao mesmo tempo, uma imagem drástica da repreensão dos instintos. Aqui não se trata da superação dos instintos animais, mas de uma entrega do ser humano inteiro de “um disciplinamento de suas funções especialmente humanas e espirituais, em direção a uma meta espiritual supramundana”. O sacrifício na cruz não quer despedaçar o ser humano, mas promovê-lo em seu caminho interior. Na História, esse sacrifício, ao qual a cruz convidou os cristãos, “levou a um desenvolvimento da consciência que, sem esse treinamento, seria simplesmente impossível”. Sem o disciplinamento através da ascese cristã, manifestam-se novamente a rudeza e a falta de consciência da Antiguidade.

O segundo significado da cruz é para Jung que ela simboliza o sofrimento. Segundo Jung, cada passo no caminho da conscientização progressiva pode ser somente comprado com sofrimento. O sofrimento é o portão pelo qual o ser humano precisa passar quando quer se tornar consciente de si mesmo. O sofrimento tem sua causa principalmente no fato de que o ser humano tem de aceitar-se em suas contradições que às vezes ameaçam dilacerá-lo.  Quem se põe a caminho para tornar-se íntegro experimenta como está cruzado e contrariado por contradições e opostos interiores, pelo oposto de luz e trevas, de bem e  mal, de consciente e inconsciente, de masculino e feminino. 

Diz Jung:
Quem quer que se encontre no caminho para a integridade não pode escapar daquela estranha suspensão representada pela crucificação. Pois encontrará sem falta aquilo que o cruza e contraria, a saber, primeiro, aquilo que ele não quer ser (sombra); segundo, aquilo que ele não é, mas que o outro é (realidade individual do tu); e, terceiro, aquilo que é seu Não-Ego psíquico, a saber, o inconsciente coletivo.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Celebração Eucarística do dia - Em Francês*

Transmissão quotidiana da Celebração Eucarística diretamente da Crypta do Oratório São José, difundida pela TV Sal e Luz – Montréal/Canada.


“Assim como a corça anseia pelas correntes das águas, de tal modo a minha alma anseia por ti, ó Deus” Sl 42,2 



+Clique na Playlist, no canto esquerdo abaixo, e escolha a celebração desejada!


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*Retransmissão de Segunda à Sábado pela TV Sal + Luz diretamente do canal Youtube (playlist) a partir das 13h30min, horário do Brasil,  e disponível aqui no blog.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Os Pensamentos e a Oração na tradição




***

As raízes primitivas da tradição contemplativa são sem dúvida os Evangelhos e a vida de oração de Jesus, que buscava frequentemente o silêncio e solidão para estar em comunhão com seu Pai. Ele falava do Reino interior, dizendo-nos para ao rezar, entrarmos em nosso quarto, fechar a porta e lá, orar ao mesmo Pai no qual nos assegura sua união e a nossa, através d’Ele. Um dos pilares da tradição cristã é que temos em Jesus de Nazaré em suas parábolas e histórias, na tradição do Evangelho, uma entrevisão do que sejam as possibilidades do desenvolvimento humano. Temos uma visão de um Deus Amor do qual somos parte inerente e também que podemos abrir-nos a união de toda nossa vida, todo nosso ser nesse Deus, e fazer disso uma imensa e ilimitada capacidade de dar e receber amor. Muitas vezes, entretanto, nem sempre temos a certeza de como caminhar nessa trilha, o "caminho estreito" do qual Jesus falava, que nos possibilite fazer dessa transformação uma realidade.

Falando de transformação somos lembrados de que na prática da oração contemplativa somos parte de uma tradição antiga que remonta às comunidades primitivas nos desertos da África e no Oriente Médio. Isto pode ajudar-nos a refletir sobre a tradição dos Padres e Madres do Deserto, como uma das primeiras tentativas de cristãos viverem radicalmente o Evangelho, de uma forma mais sincera e radical, de tornar-se bom como Deus é Bom e aprender a amar verdadeiramente como Jesus ensinou.

O desenvolvimento do monaquismo do deserto acontece no contexto histórico do Concílio de Nicéia, o final da época dos martírios e o movimento para o deserto, particularmente no alto e baixo Egito, por cristãos buscando fuga da sociedade corrupta, elevados impostos e conturbação social.

Três modelos iniciais de monaquismo floresceram a partir do III ao VI séculos em três áreas geográficas. No baixo Egito a vida monástica eremítica é melhor representada por Antão, o Grande, um copta, que deixou uma vida de riquezas para estar só como eremita no deserto. Sua vida foi escrita por Athanásio, em "Vida de Antão". A abordagem eremítica enfatiza o individualismo e a solidão, com grupos que livremente se reuniam junto a um mestre ou pai espiritual, os "abbas".

O segundo modelo aconteceu em Nitria e Scetis, a oeste do delta do Nilo, onde surgem pequenos ajuntamentos livres de monges vivendo juntos sob a direção de um "abba". Estes grupos chamavam-se "sketes" ou "lauras". Esta é a área onde João Cassiano reuniu seus relatos sobre a prática do deserto e posteriormente as transformou em suas "Conferências". Esses monges eram mais letrados, já que haviam centros acadêmicos nas vizinhanças e foi ali, que Pai (abba) Evágrio Pôntico escreveu seus trabalhos, o "Praktikos" e os "Capítulos sobre a Oração". É também dessas duas regiões que se originam os "Dizeres dos Padres do Deserto – os Apophetégmas. Os monges dessa área viviam em extrema pobreza e simplicidade, devotando-se a uma vida de oração e trabalho manual, tais como tecer cestos, e vivendo uma vida que era apenas a manutenção da subsistência.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Importância do Nome no âmbito bíblico



Prof. Dr. Francesco Bindella (*)


* * *

Na fé hebraica e cristã e também islâmica, a revelação do Nome divino “EHJEH ‘ASER ‘EHJEH” = “SOU AQUELE QUE SOU” na teofania da ‘sarça ardente’, representa em todo o arco do Antigo Testamento o degrau supremo da revelação que o Deus de Israel tinha participado ao homem. Também, dos vários nomes divinos veterotestamentários: ‘ELOHIM, JHWH, EL SHADDAY, ETC, ele é o único que tinha sido objeto de uma revelação específica já que, em todo o arco da Escritura, nunca mais ele recorrerá nesta sua completa formulação.

Desde o início desta pequena exposição, será conveniente recordar a importância significativa que o nome apresentava no âmbito da cultura hebraica e no uso bíblico. Mais do que um apelativo convencional linguístico, ele era considerado como expressivo da íntima essência da pessoa (ou coisa) designada, tanto que podia manter-se válido o dito: “Dize-me como te chamas e eu te direi quem és”, ou então: “A pessoa é como se chama”.

Um exemplo emblemático, comumente aduzido, é aquele de Nabal que significa ‘estulto’: “Nabal é o seu nome – lê-se em 1Sm 25,25 – e estultícia (nebalah) está com ele”.

Desde o início do texto bíblico, os nomes pessoais apresentam um significado essencial, são expressivos da natureza íntima da pessoa designada e do particular papel que ela exerce no quadro da ‘história salutis’ (assim Eva: Gn 3,20; Caim: Gn 4,1; Noé Gn 5,29; a cidade de Babel: Gn 11,9 etc).

As histórias dos patriarcas apresentam explicações etimológicas abundantes: Isaac recorda a risada de Abraão (Gn 17,17) e Sara (18,12;21,6); Jacó é aquele que astutamente agarra o calcanhar (Gn 25,26; 27,36; Os 12,4) e o seu irmão Esaú se chama Edom, porque era avermelhado (‘adômî: Gn 25,25) e tomou a ‘sopa avermelhada’ (25,30).

“Podemos assim dizer – escreve H. Bietenhard à conclusão de um exame sobre o significado do nome para as outras religiões em geral - que o nome é uma potência estritamente conexa com aquele que o carrega e que faz conhecer a essência; quando o nome é prenunciado ou invocado, a energia potencial de que é composto se transforma em energia atual”. “O nome não é somente uma designação; é a essencialidade reduzida à palavra”.

Há inclusive, alguns casos em que o próprio JHWH intervém para mudar o nome a um eleito: é o caso de Abraão (de ‘Abram a ‘Abraham: Gn 17,5), Sara (de Saray a Rarah: Gn 17,15) e de Jacó (de Ya’aqob a Yisra’el: Gn 32,28), enquanto para Isaac dá-se a imposição de nome no nascimento (Yitschaq Gn 17,19).

Há Também o caso, único, de mudança de nome a uma cidade: Jerusalém em perspectiva escatológica (Is 1,26; 62,2; Zc 8,3) e que, em relação a Abrão, Isaac, e Jacó, será dita “preparada por Deus para eles” (Hb 11,) qual objeto de sua herança, a eles associada o dom de um nome novo.

A mudança de nome a um homem por parte de Deus na Escritura é, ao mesmo tempo, profecia e investidura de fundação pela qual o eleito é constituído fundador e chefe em sentido orgânico: fundador de uma instituição de origem divina destinada a penetrar e a se perpetuar na história elevando-a a ‘história de salvação’; chefe, no sentido que tal direta iniciativa divina impõe uma ordem salvífica orgânica pela qual o eleito se torna lugar de incorporação para as multidões.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Os Vícios segundo a tradição Monástica





* * *


A doutrina dos oito vícios é um capítulo interessante da psicologia monástica. Foi desenvolvida, sobretudo, por Evágrio Pôntico e Cassiano, mas aparece também em Clímaco, em Máximo Confessor e em outros. Nela se distinguem estes oito vícios: gula, luxúria, cobiça, tristeza, ira, acídia (preguiça), vaidade e orgulho.

A cada um destes oito vícios Evágrio atribui um demônio, que determina suas características. Nem todos provocam os mesmos pensamentos. Um provoca pensamentos de cobiça, outro pensamentos de orgulho. Nisto os demônios se distinguem também de acordo com sua espécie. Alguns são leves e atacam de repente - por exemplo, o demônio da luxúria. O demônio da acídia, pelo contrário, é pesado e pouco a pouco oprime a alma com sua força cada vez maior.

A estrutura dos oito vícios se dá de acordo com a tríplice divisão da alma segundo Platão. Os três primeiros vícios são atribuídos à parte dos desejos (epithymia), os três seguintes a parte excitável ou emocional (thymos), e os dois últimos a parte espiritual (nous).

Os três primeiros vícios - GULA, LUXÚRIA e COBIÇA - são instintos básicos fundamentais. Poderíamos atribuí-los a fase oral, anal e fálica no desenvolvimento da primeira infância. Estes instintos fazem parte da natureza humana, e não nos é possível simplesmente eliminá-los. Eles têm que ser integrados, é preciso que lhes seja imposta a reta medida.

Os três vícios seguintes - TRISTEZA, IRA e ACÍDIA - são estados negativos de ânimo, muito mais difíceis de ser superados. Estes estados não se deixam dominar como os instintos. O reto convívio com eles exige um equilíbrio da alma e uma maturidade interior, a que só podemos chegar quando nos ocupamos honestamente com os pensamentos e os estados de ânimo, e quando “nos abrimos” sem reservas para Deus.

Mais difícil ainda é combater os dois últimos vícios - VAIDADE e ORGULHO -, porque o espírito é o mais difícil de ser domado. Aqui é onde com mais facilidade os demônios podem enganar alguém.
A respeito dos oito vícios Evágrio fala de diferentes maneiras. Ele pode falar de impulsos e estados de ânimo, ou de pensamentos de cobiça ou de ira, ou então falar do demônio da cobiça, do demônio da ira. Ele, por conseguinte, personifica o vício. É como se fosse um interlocutor autônomo, um demônio que tenta alguém e que procura impeli-lo para um instinto, para uma emoção ou para uma cegueira espiritual. E cada um dos oito demônios possui sua técnica própria. O fato de identificar os demônios com os oito vícios mostra mais uma vez que na demonologia de Evágrio não se trata tanto de fenômenos extraordinários, como possessão, mas sim do elemento tenebroso e mau que cada pessoa experimenta em si, da luta contra as falsas atitudes interiores que procuram se estabelecer em nós, desta maneira criando obstáculos a nossa abertura para Deus. Evágrio descreve um por um os oito demônios que se encontram por trás dos diversos vícios.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Oração da Tarde - Laudes Vespertinae




Ofício de Vésperas* 
(Em Francês)



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* Louvor da Tarde. É o nome eclesial que se dá à oração que se faz ao cair da tarde, Laudes Vespertinae.
 
Já no Judaísmo antigo, os crentes se reuniam para a oração matutina e vespertina, e tinham salmos e cânticos adequados a essas horas. Também os cristãos, inicialmente, talvez por devoção pessoal e, mais tarde, como oração oficial da comunidade, organizaram a oração matutina de Laudes, sobretudo a partir do século IV.

O último dos salmos desta hora toma-se de entre os chamados laudes ou louvores (sobretudo, os Salmos 148-150), que assim dão o seu tom laudativo, enquanto que o primeiro costuma ser um dos que falam da manhã ("Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro […]").

O Concílio recomendou que "as Laudes, como oração da manhã, e as Vésperas, como oração do entardecer, duplo eixo do ofício quotidiano segundo a venerável tradição de toda a Igreja, devem considerar-se as Horas principais e celebram-se como tais" (SC 89), e, sendo possível, com a participação do povo, de modo que se convertam em oração da comunidade cristã (cf. IGLH 40).

"O Ofício de Laudes destina-se a santificar o tempo da manhã… Esta Hora, recitada ao despontar da luz de um novo dia, evoca também a Ressurreição do Senhor Jesus, a luz verdadeira que ilumina todos os homens, o “Sol de Justiça”, o 'Sol nascente que vem do alto'" (IGLH 38).

Na estrutura actual de Laudes (cf. IGLH 41-45) reflectem-se bem estas conotações da luz, da ressurreição, do início da jornada: nos hinos, nos salmos, nas leituras breves, no cântico do Benedictus (o sol que nasce do alto), nas preces de invocação e oferecimento da jornada, e na oração conclusiva, depois do Pai-Nosso. Antes, se não se fez já no ofício de leitura, pode-se rezar ou cantar o Salmo Invitatório.


# Fonte: Liturgia das Horas

Oração da Manhã - Laudes Matutinae



 Ofício de Laudes*
(Em Francês) 


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* Em latim, significa 'louvores'. É o nome que se dá à oração eclesial que se faz pela manhã, laudes matutinæ.

Já no Judaísmo antigo, os crentes se reuniam para a oração matutina e vespertina, e tinham salmos e cânticos adequados a essas horas. Também os cristãos, inicialmente, talvez por devoção pessoal e, mais tarde, como oração oficial da comunidade, organizaram a oração matutina de Laudes, sobretudo a partir do século IV.

O último dos salmos desta hora toma-se de entre os chamados laudes ou louvores (sobretudo, os Salmos 148-150), que assim dão o seu tom laudativo, enquanto que o primeiro costuma ser um dos que falam da manhã ("Senhor, sois o meu Deus: desde a aurora Vos procuro […]").

O Concílio recomendou que "as Laudes, como oração da manhã, e as Vésperas, como oração do entardecer, duplo eixo do ofício quotidiano segundo a venerável tradição de toda a Igreja, devem considerar-se as Horas principais e celebram-se como tais" (SC 89), e, sendo possível, com a participação do povo, de modo que se convertam em oração da comunidade cristã (cf. IGLH 40).

"O Ofício de Laudes destina-se a santificar o tempo da manhã… Esta Hora, recitada ao despontar da luz de um novo dia, evoca também a Ressurreição do Senhor Jesus, a luz verdadeira que ilumina todos os homens, o “Sol de Justiça”, o 'Sol nascente que vem do alto'" (IGLH 38).

Na estrutura actual de Laudes (cf. IGLH 41-45) reflectem-se bem estas conotações da luz, da ressurreição, do início da jornada: nos hinos, nos salmos, nas leituras breves, no cântico do Benedictus (o sol que nasce do alto), nas preces de invocação e oferecimento da jornada, e na oração conclusiva, depois do Pai-Nosso. Antes, se não se fez já no ofício de leitura, pode-se rezar ou cantar o Salmo Invitatório.


# Fonte: Liturgia das Horas

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Primícias do monaquismo Cristão - Origem




"...esses homens estão longe de si mesmos, como ébrios de bebida, ébrios em espírito de mistério e de Deus".              Pseudo-Macário, homilias espirituais.





* * *


O termo Padres do Deserto inclui um grupo influente de eremitas e cenobitas do século IV que se estabeleceram no deserto egípcio. 

As origens do monaquismo oriental se encontram nessas ermidas primitivas e comunidades religiosas. Paulo de Tebas foi o primeiro eremita do qual se tem notícia, a estabelecer a tradição do ascetismo e contemplação monástica, e Pacômio da Tebaida é considerado o fundador do cenobitismo, do monasticismo primitivo. 

Ao final do terceiro século, contudo, o venerado Antão do Egito orienta colônias de eremitas na região central. Logo, ele se torna o protótipo do recluso e do herói religioso para a Igreja oriental - uma fama devida em grande parte à vasta louvação na biografia de Atanásio sobre ele.
Esses primitivos monásticos atraíram um grande número de seguidores aos seus retiros austeros, através da influência de sua simples, individualista, severa e concentrada busca pela salvação e união com Deus. 

Os Padres do Deserto eram frequentemente solicitados para direção espiritual e conselho aos seus discípulos. Suas respostas foram gravadas e colecionadas num trabalho chamado "Paraíso" ou "Apotegmas dos Padres". 




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* (Por Emily K. C. Strand, tradução Jandira)



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