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Obs.: Abaixo, tradução do título para outras línguas:

"SABEDORIA DO DESERTO"

'Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração' Os 2,16

* Este espaço é dedicado ao acompanhamento baseado na experiência Paterna e Espiritual dos Pais do Deserto.
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Páginas

domingo, 2 de junho de 2013

Heranças do Deserto Cristão







As comunidades contemplativas que temos conhecimento hoje têm por fundamento a vasta experiência adquirida dos padres e mães do deserto. Algumas se concretizaram do desejo de viver a mesma forma de seguimento, sob a orientação desses homens e mulheres que alcançaram pela austeridade de vida um conhecimento profundo do que é o homem, ao passo que ascendiam em sua intimidade com Deus.

sábado, 11 de maio de 2013

Na Escola do Verbo Encarnado





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Com a inauguração do Cristianismo, o mundo pôde perceber, respirar um novo ar, na medida em que gradativamente se abria à uma grande novidade, ‘a exaltação do homem e sua dignidade’, com o surgimento do Filho de Deus na terra. O salmista de forma toda particular e precisa já o mencionara quando inspirado em suas preces escreveu:
 
Está perto a salvação dos que o temem, e a glória habitará em nossa terra”.
Sl 84,10.

E continua:

A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão; da terra brotará a fidelidade, e a justiça olhará dos altos céus”    Sl 84,11.

Estes versículos podem nos dar pistas para uma reflexão na compreensão do que foi o homem no passado, e de certa forma nos abrir os olhos para quem é o homem no presente ao passo que nos dobramos em questionar sobre o que será do mesmo no futuro a partir do advento de Cristo, mais precisamente de Sua mensagem libertadora em nosso meio, como de Seu projeto ao longo dos séculos, até os nossos dias.

A partir de um olhar que contempla a história humana presente, podemos dizer que o homem de alguma forma chegou, embora não ainda de forma completa, ao que Deus realmente sonha ao pensar na humanidade. Se por um lado existe ainda um certo tipo de mal, proveniente do egoísmo no coração do homem a ser sanado, por outro, podemos denotar mesmo que a passos lentos, o progresso do mesmo em vista do bem que contemple o homem todo em suas reais necessidades, quer materiais ou espirituais.

sábado, 4 de maio de 2013

Espiritualidade Pascal Cristã e sua origem



Dom Emanuel d’Able do Amaral, OSB*




A Espiritualidade Pascal e a Iniciação Cristã (1)

Os primeiros séculos da vida cristã foram marcados por uma grande espiritualidade. No alvorecer do cristianismo as comunidades foram marcadas por uma espiritualidade pascal. Ao lermos com atenção os escritos do Novo Testamento e os primeiros textos cristãos, percebemos a força da espiritualidade nascida do evento da ressurreição do senhor. A teologia da Igreja primitiva é, portanto, uma teologia pascal. Por isso mesmo, o dia da iniciação cristã era considerado o mais importante da vida de um cristão. Era o dia de seu nascimento para Deus e a convicção de sua pertença à comunidade dos eleitos, que se reunia semanalmente para celebrar a ressurreição de Jesus Cristo.

Essa espiritualidade era marcada pela alegria, porque nascida no contexto pascal. Era também uma espiritualidade missionária, porque os primeiros cristãos sempre anunciavam, com suas próprias vidas, a Boa Nova. Portanto, essa espiritualidade pascal era carregada de grande dinamismo, transmitida pela palavra e pelos atos dos primeiros cristãos, e capaz de transformar pessoas e sociedades inteiras. 

A iniciação cristã, que compreendia a recepção de três sacramentos – Batismo, Eucaristia e Confirmação – era realizada na noite da Vigília Pascal e compreendia a base sobre a qual era construída toda a vida espiritual e eclesial dos primeiros cristãos.  A partir dessa celebração o batizado devia expressar a sua conversão a Cristo por palavras e atos, mudando radicalmente de vida e deixando transparecer para todos a vida nova emergida das fontes batismais.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A oração que brota do coração



A Oração de Jesus*





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1. O CONTEXTO ECLESIAL  TEOLÓGICO/SACRAMENTAL:


Muito importante para compreender esta oração é situá-la em seu contexto teológico e eclesial: o hesicasta não está além da Igreja, ele se centra na Igreja, se faz integralmente um homem da Igreja, capaz de “fazer eucaristia em todas as coisas” como pedia o Apóstolo (I Tes 5,18). Que o hesicasmo constitui a contrapartida cristã do yoga que re-situa, numa atitude propriamente de reencontro pessoal e de graça, uma exploração da interioridade que também as espiritualidades asiáticas praticam, é mais que provável. E isto se deve à estrutura mesma do homem, criado à imagem de Deus.

Voltaremos a falar sobre isto. Porém, posto que só Cristo pode recapitular todas as coisas e colocar tudo em seu verdadeiro lugar, o hesicasmo aparece como fundamentalmente crístico, como uma ascese cujo fim é a tomada de consciência atuante da Igreja, Corpo de Cristo, Templo do Espírito Santo e Casa do Pai...


A) É NECESSÁRIO, EM PRIMEIRO LUGAR, RECORDAR ALGUMAS APROXIMAÇÕES TEOLÓGICAS:

Quando, no Ocidente, pensamos na noção de natureza, o fazemos através de uma sensibilidade filosófica modelada pelo tomismo tardio, logo, pelo dualismo cartesiano, finalmente, pelas ciências contemporâneas que reabilitam - contra as ciências humanas - esse "paradigma perdido" a partir dos dados da biologia, da ecologia e da etología. Assim, cada vez, temos a impressão de que a graça vem juntar-se à natureza para contrariá-la ou aperfeiçoá-la... No Oriente cristão, me parece, a graça é sentida como presente em tudo o que existe. A verdadeira natureza dos seres e das coisas é justamente essa transparência à graça, esse dinamismo de união com as energias divinas. Pois, a graça é incriada, é Deus mesmo que se faz participável voluntariamente, permanecendo, ao mesmo tempo, o Totalmente Outro, o Inacessível.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Lectio Divina como escola de oração





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A escola de Oração entre os Padres do Deserto*



A Escritura, escola de vida:

A vocação de Antão, como nos foi descrita por Atanásio em sua ‘Vida de Antão’, é bem conhecida. Certo dia o jovem Antão, que havia sido criado numa família cristã da Igreja de Alexandria (ou ao menos na região de Alexandria) e que havia portanto escutado as suas Escrituras serem lidas desde sua infância, entra numa igreja e é particularmente movido pelo texto da Escritura que ouve sendo lida: a história da vocação do jovem rico: “Se quiser ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e depois, segue-me; terás um tesouro nos céus” (Mt 19,21 Vit. Ant. 2).

Antão sem dúvida havia escutado este texto muitas vezes antes: mas naquele dia a mensagem o acerta com mais força, e recebe-a como um chamado pessoal. Responde, então ao chamado, vende a propriedade da família - que era bastante considerável - e distribui os lucros desta venda aos pobres do vilarejo, conservando só o suficiente para manter sua irmã mais nova por quem é responsável.

Pouco depois, ao entrar na igreja de novo, ouve outro texto do Evangelho que o afeta tanto quanto o primeiro: “Não vos preocupeis com o amanhã” (Mt 6,34: Vit. Ant. 3). Este texto também vai direto ao seu coração como um chamado pessoal. Confia assim sua irmã a uma comunidade de virgens (tais comunidades existiam há muito), liberta-se de tudo o que fica com ele e assume uma vida ascética, próximo à sua aldeia, sob a orientação dos ascetas da região.

Esta história mostra claramente a importância e o significado que a Escritura tinha entre os Padres do Deserto. Antes de tudo, era uma escola de vida. E porque era uma escola de vida, era também uma escola de oração para os homens e as mulheres que desejavam fazer de sua vida uma oração contínua, como a Escritura lhes pedia.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Sob o signo da Cruz





“In hoc signo vinces”




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A Cruz foi um dos primeiros sinais inventados pela sabedoria divina mais antigos, e, representada desde longo tempo, já há muito séculos antes da inauguração de uma nova era que despontava com o novo anuncio trazido por Jesus no Novo Testamento.

Ela esteve presente no paraíso, simbolizada pela ‘Árvore’ (Gn 2,9) contida no meio do jardim do Éden, e em outro lugar aquela que trazia consigo o fruto do conhecimento do bem e do mal (Gn 3,3); esteve presente nos tempos de Noé através da ‘Arca’ (Gn 6,14), quando do extermínio de uma multidão de pessoas e gerações, e, que, por mandado de Deus, fora construída com o intuito de salvar os fiéis das águas do dilúvio que dissipava todo erro e engano daquele tempo. No decorrer da travessia do povo hebreu no Egito, a mesma fora representada por uma ‘Haste’ (Nm 21,8) de onde pendeu a serpente de bronze que curaria a todos do veneno impetrado no mesmo por conta de sua falta de fé expressa na agitação de suas murmurações.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Da paciência e da força = apoftegmas




"Aquele que perseverar até o fim será salvo" 
                                                Mt 24, 13





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1. O abade Antão, quando residia no deserto, caiu em acédia e em grande obscuridade de pensamentos; disse ele a Deus: “Senhor, quero ser salvo, mas meus pensamentos não me permitem; que farei nesta minha aflição? Como serei salvo?”. Um pouco mais tarde levantou-se e saiu da cela. Percebeu então que alguém parecido consigo estava sentado e trabalhava, depois afastava-se da obra e rezava; sentando-se novamente trançava uma corda e se erguia ainda para rezar. Era um anjo do Senhor que se enviara a Antão para sua correção e salvaguarda. Escutou o anjo lhe dizer: “Faze o mesmo e serás salvo!” A tais palavras foi tomado de grande gozo e confiança. Agindo deste modo operava sua salvação. (Antão, 1).

2. Um irmão interrogou o abade Agatão: “Tenho uma ordem a executar, mas num sítio onde terei de pelejar bastante. Quero ir para obedecer, mas temo a guerra”. Respondeu-lhe o ancião: “Em teu lugar Agatão cumpriria a ordem e ganharia a guerra”. (Agatão, 13)

3. O abade Amonas dizia: “Passei quatorze anos na Cítia, e orava a Deus dia e noite para me dar a força de vencer a cólera”. (Amonas, 3).

4. O abade Bessarião dizia: “Fiquei de pé quarenta dias sem dormir e quarenta noites sobre espinhos”. (Bessarião, 6).

5. Um irmão, que vivia como anacoreta, estava turbado. Ele foi até a morada do abade Teodoro de Farméia e lhe declarou sua inquietação. Disse-lhe o ancião: “Vai, conserva a alma na humildade, sê submisso aos outros e vive com eles”. Ele partiu para a montanha e foi viver com outros. Depois retornou ao ancião e lhe disse: “Não encontrei o repouso vivendo entre os homens”. Disse-lhe o ancião: “Se não encontras repouso nem na soledade nem na companhia dos irmãos, por que vieste a ser monge? Não fora para suportar penas? Mas dize-me: há quanto tempo vestes o hábito?” – “Oito anos”, respondeu ele. Replicou o ancião: “Crê em mim, eis que o visto há sessenta anos e não houve um dia de repouso para mim, enquanto que tu o queres após oito anos?” Ao escutar isso partiu reconfortado. (Teodoro de Farméia, 2).

sábado, 1 de setembro de 2012

Atitude Orante por intermédio da Palavra







“Vossa Palavra é luz que ilumina meus passos, é lâmpada em meu caminho” 
Sl 118, 105.      


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Existe uma diferença entre Palavra de Deus escrita – como um dado histórico passado – e Palavra de Deus revelada, ou seja, aquela que é confrontada com a história presente, na qual a pessoa está inserida, dando-se aí como concretização da Palavra de Deus pessoal ou comunitária à sua compreensão.
A Palavra escrita é um dado importante ao compararmos os feitos que Deus outrora realizou, numa época específica, para um povo específico, sob contexto similar ou diferente de hoje, e que nos leva a direcionar o nosso entendimento ao encarnar a mesma no aqui e  agora.
Para os antigos monges, era imprescindível e lhes bastavam por excelência o contato assíduo com a leitura sagrada, ou ‘lectio divina’, que, ruminada ao longo do tempo chegavam à compreensão por meio da abertura gradativa que se dava pela experiência pessoal no decorrer do dia, ou até mesmo dos anos, logo fossem capazes de apreender e entender a Palavra de Deus pela acolhida em seu interior; sendo assim, a Sagradas Escrituras era confrontada e se misturava com a própria vida, surtindo o efeito esperado com o alargar do espírito e o dilatar do coração.
Persuadido pelo exemplo e experiências anteriores de monges - que bem antes já viviam nos desertos - contatamos que em São Bento não fora diferente; o importante foi sempre manter o contato extenso e assíduo com as divinas Escrituras, ainda que sem muita compreensão no momento, mas certo de que feito na perseverança ia se revelando no coração o entendimento do mistério divino que consistia exclusivamente no confronto entre a leitura escrita com a realidade pessoal vivida como  garantia do desvendar das revelações de Deus.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Conhecimento por meio da Fé



Por Ir.Bruno Claudionor, O.Cist.*




Aos olhos de muitos, a mística especulativa desenvolvida durante a Idade Média pelos monges em seus conventos ou mosteiros, serviu apenas como pedra de tropeço para o crescente desenvolvimento filosófico-teológico-dialético neste mesmo período. Se por um lado esta concepção tem seu teor de verdade, por outro, está longe de corresponder a toda realidade. Com efeito, se é verdade e inegável que coube aos filósofos e teólogos dialéticos protagonizar toda atividade filosófica e teológica medieval, porque de fato, cabia a eles tal protagonização, não menos verdade é a importância e contribuição dada pelos místicos especulativos, seja pelos seus próprios modos de ser, de viver, seja pelos seus escritos.

Bernardo de Claraval, nascido no ano de1090 em Dijon, França, inseri-se nesta mística especulativa.

A fé enquanto saber seguro da realidade divina, segundo São Bernardo, vai constituir o alicerce do trabalho que se apresenta.

Bernardo não escreveu nenhum tratado especificamente sobre a fé, por isso, mesmo sendo toda sua obra considerada uma especulação mística, o que não é outra coisa senão o fruto de sua inabalável fé, fica difícil compreender a questão da fé como saber divino, fora daquela velha e conhecida problemática entre fé e razão que tão profundamente animou a discussão teológico-filosófica durante toda Idade Média. Por isso, seguindo um método de estudo, primeiro é dado ênfase ao pensamento de São Bernardo no contexto da Idade Média, e em seguida, é feito o aprofundamento do tema em estudo. Ciente dos nossos limites para esse trabalho e tentando responder às questões apresentadas, esperamos ao menos mostrar a importância do nosso estudo no alargamento e integração dos horizontes teológicos e na pesquisa sobre São Bernardo.  

Mestre por excelência da mística, São Bernardo mesmo pertencendo ao período pré-escolástico, rejeita completamente o método e a concepção de teologia e filosofia usados pelos filósofos e teólogos de sua época. Enquanto monge, ele escreveu primeiro para os “seus”. Porém, assim como suas atuações, os seus escritos, partindo de pressupostos universais, também ultrapassaram os claustros e atingiram os mais diversos públicos, desde o âmbito eclesial até à sociedade de um modo geral. Mas, ao rejeitar eficientemente o método dialético racional teológico-filosófico, qual método Bernardo usou para a construção de seu pensamento? Quais exatamente as linhas deste pensamento capaz de dar início a todo um movimento que se desenvolveu no curso dos séculos seguintes.  À primeira vista, ao menos assim parece tanto o método quanto o pensamento Bernardino relaciona-se com sua concepção de filosofia, que sendo decorrente da experiência claustral, é bem clara e diferente comparada com a dos filósofos de seu tempo. Diz ele: “A minha filosofia é conhecer Jesus, e Jesus crucificado”.  Sendo Deus para Bernardo a própria Sabedoria, este conhecer Jesus significa, pois, conhecimento ou amor a Sabedoria considerado indistintamente como busca da sabedoria, busca de Deus ou amor a Deus proporcionado pela fé:

“O que é Deus? Ele é ao mesmo tempo, comprimento, largura, altura e profundidade... Esse comprimento, o que ele é? A eternidade, pois esta é tão longa que não tem limites seja quanto o lugar, seja quanto ao tempo. É Deus também largura? E essa largura, que é ela senão a caridade que se estende até o infinito? Deus é altura e profundidade; e por essa altura deveis entender seu poder; e por profundeza, sua sabedoria. Ó sabedoria cheia de poder que chega a todos os recantos com força. Ó poder cheio de sabedoria que tudo dispõe com doçura”.

domingo, 29 de julho de 2012

O hesicasmo e a oração de Jesus




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A comunidade apostólica, retomando uma tradição vétero-testamentária, dedicou, desde o início, uma atenção toda particular Ao Nome que o Filho de Deus assumiu no momento da Sua encarnação: JESUS, que significa ‘Deus SALVA’. Além disso, três textos colocam em evidência a veneração da Igreja primitiva para com o nome de Jesus: Fl 2,9-10; At 4,10-12; Jo 16,23-24.

Todavia, a Oração do Coração, enraizada no Novo Testamento, foi assumida por uma corrente própria da espiritualidade oriental antiga que foi chamada de hesicasmo. O nome provém do grego hesychìa que significa: calma, paz, tranquilidade, ausência de preocupação.

O hesicasmo pode ser definido como um sistema espiritual de orientação essencialmente contemplativa que busca a perfeição (deificação) do homem na união com Deus através da oração incessante.
Todavia, o que caracteriza tal movimento é, seguramente, a afirmação da excelência ou da necessidade da própria hesiquia, da quietude, para chegar à paz com Deus. Num documento do mosteiro de Iviron do Monte Athos, lê-se esta definição:

“O hesicasta é aquele que fala somente com Deus e reza sem cessar”.

Os hesicastas, inserindo-se na tradição bíblica, exprimiram a experiência da oração contemplativa através da invocação e da atenção do coração ao Nome de Jesus, para caminharem na Sua presença, serem libertados de todo pecado e permanecerem no suave repouso de Deus à escuta da Sua palavra silenciosa.

A história do hesicasmo começa com os monges do deserto no Egito e em Gaza. “A nós, pequenos e fracos, não nos resta outra coisa senão refugiar-nos no Nome de Jesus”, disse um deles. Depois, se firma com o mosteiro do Sinai, com São João Clímaco. Um expoente máximo é, seguramente, Simeão, o novo Teólogo. Renascerá no Monte Athos no século XIV.

sábado, 26 de maio de 2012

Aprender a rezar com os Salmos



A oração como parte integrante no mistério do Corpo Místico de Cristo





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Foi da tradição judaica que a Igreja – ou cristianismo – conservou o costume de rezar tendo como modelo os salmos. 

Jesus como um bom judeu também os repetiu em seus lábios quando recolhido para rezar, nas peregrinações, no templo, nas sinagogas até no momento crucial de sua passagem desse mundo no alto da Cruz. 

Em suma, toda a oração dos Salmos é um resumo do mistério de Cristo que se une a Sua Igreja, pré-anunciada desde antes pelos profetas numa perfeita relação com o povo da promessa antiga, até de se ver concretizada em Jesus em vista de Seu novo povo, nascido de Seu lado aberto pela lança. 

Assim repetimos com o salmista: 

“Tende piedade de mim, Senhor, porque desfaleço; sarai-me, pois sinto abalados os meus ossos. Minha alma está muito perturbada; vós, porém, Senhor, até quando?... Voltai, Senhor, livrai minha alma; salvai-me, pela vossa bondade” (Sl 6,3-5).

Para os que têm o hábito de rezar o saltério, seja em comunidade ou em particular, vemos aqui um salmo típico que se compreende pela súplica daquele que busca o socorro em uma grave doença.

É importante ressaltar aqui que, o mistério do Corpo Místico de Cristo une a comunidade dos batizados em um só corpo, onde Cristo é a cabeça. Os padecimentos de um só membro do corpo torna enfermo todo o restante, uma vez que estamos unidos por meio de Cristo. Sendo assim, por mais que as palavras do salmista acima citadas não me caibam naquele determinado momento, temos a certeza de que alguém – ‘no Corpo Místico’ – está passando pela mesma experiência, e dessa forma podemos emprestar nossa voz nos colocando no lugar de tal pessoa; Deus o sabe bem melhor que nós. 

Se por um lado se denota nos versículos do salmo apresentado acima a presença contida de um mal físico real, por outro ela pode ser também entendida como um mal no espírito, ou externo em outros casos, quando se refere à perseguição, como é o caso das menções de vinganças em que Deus vem em auxílio daqueles que n’Ele se confiam fazendo-lhes justiça e que são conhecidos como ‘precatórios’.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A fraqueza explicitada na Ressurreição: O olhar do Pai






Voltemos nosso pensamento ao tempo do exílio, onde o povo eleito da antiga aliança, a casa de Israel, ficou cativo em poder dos babilônicos por longos e longos anos. Imaginemos aqui o cenário de humilhações a que fora submetido em um país estrangeiro e pagão. Este povo, de fé sólida, apesar dos fracassos, saudoso de sua pátria, do templo, deslocado de sua terra, via-se atado no convívio com uma gente contrária a seus hábitos e costumes, sobretudo os religiosos, que era de onde buscava forças para continuar fiel ao seu chamado, e como forma de manter viva sua tradição, sem perder a identidade, diante do peso que o oprimia, sendo obrigado a realizar trabalhos penosos como escravo, numa terra de tormentos. Deus o humilhara. O clamor era visível em seus rostos cansados e envergados sob o peso das humilhações que duraram um pouco mais de quatro séculos, esmagados sob o poder que os aniquilava em suas convicções. Na certeza do merecimento de tantos males por causa de seus pecados e aceitos como penitência, não cessavam de implorar a Deus o socorro necessário à sua causa. A esperança era o seu alimento, ainda que Deus tardasse em socorrê-los. Estando como mortos, curvados sob a dor, Deus os conduzira aí para tocar-lhes o coração.
É neste cenário triste, permeado de sofrimentos, que surge a promessa de restauração desse povo, sinal antecipado do que entendemos hoje por ressurreição, aquela mesma trazida por Cristo. A profecia da restauração da casa de Israel se deu a partir de uma visão, a mesma que Ezequiel mencionou ter visto, um amontoado de ossos secos,[1] significando a vida sem alento desse povo que em terras estrangeiras[2] peregrinou entre a incerteza e a espera desse dia. Os séculos se passaram, muitos dos que desejavam ver o dia da restauração de sua gente já nem se encontravam vivos, passaram-se gerações.
Um dos temas que trata a visão é o do preenchimento dos ossos ressequidos com carne rejuvenescida. Acredita-se que pela ressurreição, as doenças, rugas, ou qualquer outro mal físico será extinto de cada pessoa, conformando-a, de uma vez por todas, a Cristo, como primícia dentre muitos que morreram,[3] em seu estado perfeito, como nova criatura; daí se entende algumas imagens do ressuscitado serem representadas com um aspecto mais jovem, para ressaltar esse mistério.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Chamados pelo Nome






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É evidente para todos que o ‘nome’ é de extrema importância, visto ser o mesmo revelador, aquele que identifica o ser como pessoa e o torna exclusivo, único, particular, dentre uma multidão dos, por assim dizer, constituídos seus semelhantes. Na experiência concreta do nosso quotidiano costumamos sempre ligar o fato à pessoa ou vice-versa, em se tratando daquele que se conhece, como sendo parte da identidade que ao longo do tempo foi-se revelando em sua característica de ser, ou seja, a formação de sua índole.

No plano espiritual o nome está sempre ligado para além do que podemos ver com os nossos olhos ou tocar com nossas mãos, e se autóloga por uma atitude de busca na compreensão do chamado interior que se define pela vocação (do latim: vocare) de cada pessoa, ou seja, seu verdadeiro lugar e missão no mundo. Foi assim para o povo da aliança primeira. O nome fazia parte de um acontecimento concreto na vida de cada pessoa, como também revelava o seu papel futuro diante da comunidade; assim, para os antigos, cada nome carrega o seu significado característico.

É no livro das revelações de São João, ou apocalipse, que encontramos:

“Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor darei o maná escondido e lhe entregarei uma pedra branca, na qual está escrito um ‘nome novo’ que ninguém conhece, senão aquele que o receber” (Ap 2,17).

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A condição humilde do Bom Pastor




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Para iniciarmos sobre este assunto que caracteriza a ideia de pastor, mas especificamente aqui, ao nos referirmos sobre a experiência que repousa da atitude espiritual daqueles que tem o múnus de guiar pessoas, pensemos a partir dessa imagem, no paralelo que possa existir com qualquer outro tipo de autoridade constituída, em suas diversas realidades e culturas, em torno de nosso mundo.

A ideia de pastor, é importante ressaltar, nasce da experiência dos povos antigos como nos faz saber o antigo testamento, que, obtendo através dos séculos de cultura no lidar com os rebanhos, não deixou que logo os influenciassem na linguagem em destaque, na relação que se dá entre ovelhas e seus guias, perfeita alegoria entre o cuidado do chefe de tribo com a sua gente.

Ao chefe de tribo, competia o governo de seus bens e a boa maturidade, geralmente um ancião, experimentado nos anos, que lhe garantissem a sabedoria para bem orientar sua gente quando ao mesmo era pedido que intervisse em assuntos de ordem comum.

Os pastores de rebanhos – em sua grande maioria – eram como que empregados contratados para exercer o serviço de zeladores do bem-estar dos animais confiados à sua guarda, sejam estes ovelhas, cabras, bois, etc, isso, quando seus donos eram considerados ricos e possuidores de muitos bens; o contrário, para os de condições menos favoráveis e própria subsistência, eram eles, os próprios donos ou alguém da família que exerciam este papel. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A "PAX" como convite e abertura à voz interna


PAX



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“O Senhor disse-lhe: Sai e conserva-te em cima do monte na presença do Senhor: ele vai passar. Nesse momento passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu; mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma brisa ligeira. Tendo Elias ouvido isso, cobriu o rosto com o manto...”   1Rs 19,11-13a.


Estamos sempre a alimentar pelo desejo – e esse, advindo do mais profundo de nosso ser – para alguns, inconsciente, assinalado pela angústia na espera de algo que se faça presente e que por vezes não sabemos explicar; nisso constitui a busca incessante de noss’alma, desde o paraíso, e que por certo se torna a razão de nossa completude.

O salmista numa linguagem simples nos faz entender melhor esse anseio da alma quando disse: “Só em Deus repousa a minha alma, é dele que me vem o que eu espero” (Sl 61,6).

Para os que creem, qualquer que seja a orientação recebida, a espera é sempre pautada por meio de uma antecipação da visão, na qual se pode experimentar uma alegria sem explicação, ainda que sob véus aparentes, mas, com a certeza de que o momento certo virá. Essa experiência é típica dos que buscam de coração sincero pelas respostas à suas indagações internas e podemos constatar nos homens e nas mulheres, que, apoiando-se na fé, procuram avançar e chegar a bom termo nesta vida.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A Palavra que se fez carne



“Quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e Seu amor aos homens, não se fixou no que de bom havíamos feito, mas teve misericórdia de nós e nos salvou”  Tito 3, 4-5.



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Acompanhando os relatos contidos nas Escrituras sagradas, não é difícil a percepção de como Deus em toda história da salvação se mantém como o protagonista em iniciativas concretas, que buscam a todo custo inventar uma maneira por onde o Seu povo, por meio da reconciliação, continuasse sendo salvo.

No princípio, o chamado divino impetrado no coração do homem perfez a caminhada de fé – por meio da qual Deus se revela – rumo ao Ser supremo como o criador de todas as coisas, encontrando sua concretude no apelo interior feito um dia a Abraão, historicamente falando. É dessa figura ilustre, considerada como o pai de uma multidão de filhos por seu exemplo de fé incondicional à vontade divina, que se construíram os alicerces de um povo, marcado pelo encantamento tanto da ideia como da certeza alicerçada na confiança de um Deus supremo, onde, apoiados na esperança, marchavam rumo Àquele de quem provinha todas as coisas.

É por meio da fé que encontramos o ponto de partida compreensível da ascensão da alma a Deus, ainda que pelo mistério que a envolve, no que concerne ao âmbito espiritual/divino, para a formação das comunidades – quaisquer que sejam – congregadas por uma mesma comunhão de bens espirituais ou até mesmo materiais quando nos referimos ao esforço conjunto de bem comum; é desse passo, inerente à toda experiência religiosa no homem, que não poderia deixar de existir na história salvífica um protótipo mais perfeito que Abraão, como o foi bem mais fortemente acentuado ao povo da antiga aliança, estendendo-se também de forma singular e estreita na concepção das raízes cristãs, na qual se unem por uma mesma orientação de confiança.

É importante sublinhar que, quer no chamado interno à fé, ou ainda nos acontecimentos que giram em torno da comunidade alicerçada pela comunhão dos bens divinos, o protagonista é sempre Deus, que em tudo quer a participação de sua gente, como forma de colaborar consigo na construção do mundo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Espiritualidade dos Padres do Deserto





"Certa vez, perguntaram a um ancião o caminho que levava ao abade António...
'Na caverna de um leão vive uma raposa', respondeu ele".




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Os mestres cristãos do deserto floresceram, explodiram num ápice que durou três séculos, do III ao VI depois de Cristo. Constantino tinha restituído aos cristãos, pouco tempo antes, o direito a existirem, rompendo com o Dogma de Cómodo — Cristianous me éinai, os cristãos não são —, e subtraído com uma certa suavidade a jovem religião ao terreno espantosamente húmido do martírio, aos tempos incomparáveis das catacumbas.

Isto significava, evidentemente, entregá-la a esse perigo mortal que se manteve por dezoito séculos: o pacto com o mundo. Enquanto os cristãos de Alexandria, de Constantinopla, de Roma, regressavam à normalidade dos dias e dos direitos, alguns ascetas, aterrados com esse possível pacto, fugiam correndo, para se embrenharam nos desertos da Cétia e da Nitria, da Palestina e da Síria. Embrenhavam-se num radical silêncio que só alguns dos seus ditos conseguiram romper, bólides dirigidos a um céu insondável. Em verdade, a maior parte desses ditos foi pronunciada para nada revelarem, tal como a vida desses homens quis ser igual à vida de «um homem que não existe». («Dizia-se dos Cetiotas que se algum conseguia surpreender as suas práticas, ou seja, se alcançava o conhecimento das mesmas, tal não era considerado virtude mas antes pecado»).

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O voltar-se para dentro de si...



"Santo assassino"  

Posted by Carlos Eduardo Burle in Santos



Estamos acostumados a ouvir histórias de santos que desde a infância tiveram uma adesão humilde e forte à fé recebida em seu santo Batismo. Santos que se tornaram notáveis pelo amor incondicional à Igreja e ao próximo. Santos que gozavam de tamanha fé que lhes permitia operarem grandes milagres. Isto fez com que alguns encarassem a santidade como algo extraordinário, impossível de ser alcançado. Eis a razão pela qual muitos se escandalizaram quando foi encerrada a fase de informação diocesana e aberto o processo de beatificação de Jacques Fesch, jovem francês, condenado à prisão e finalmente executado na guilhotina há 53 anos, por ter matado um policial e ferido um funcionário de uma casa de câmbio numa tentativa de roubo.

Nascido em família rica, filho de um poderoso banqueiro belga, ateu e adúltero, indiferente quanto à formação religiosa de seus filhos. Não possuía gosto pelos estudos. Foi enviado à Alemanha para combater pelo exército francês. Depois de ter prestado serviço militar, foi-lhe arranjado um emprego com alto salário em um banco, sendo demitido após três meses. Levava uma vida mundana. Com fama de playboy, era dado à bebedeiras e frequentemente se envolvia com prostitutas. Casou-se aos 21 anos numa cerimônia civil com Pierrette Polack, filha da vizinha, que estava esperando um filho seu. Seus pais, antissemitas, não aceitaram o fato de sua nora ser filha de pai judeu. Não obstante o nascimento da filha, o jovem Fesch continuou a se encontrar com outras mulheres. Desses encontros nasceu Gérard, filho bastardo que foi entregue aos cuidados de um orfanato. Logo após, o casal se divorciou.

Inquieto e deprimido, pretendendo fugir das responsabilidades da família que, muito jovem, havia formado, decidiu empreender uma navegação solitária em redor do mundo. Pediu a seus pais a ajuda financeira necessária para comprar um barco e realizar tal viagem. Eles, não compreendendo a delicada situação emocional de seu filho, tendo-o por desequilibrado e ilusionista, negaram todo o apoio. A fim de conseguir recursos para o seu plano, acertou com o famoso cambista Alexander Silberstein a troca de dois milhões de francos por barras de ouro. No entardecer do dia 25 de fevereiro de 1954, dirige-se à casa de câmbio. Lá, apontou um revólver e exigiu a entrega do dinheiro que estava guardado na registradora. O cambista reagiu, sendo atingido com duas coronhadas na cabeça. Enquanto fugia com a quantia roubada, por meio de uma rua movimentada, deparou-se com um policial, Jean Vergne, de 35 anos, viúvo e pai de uma filha pequena. O policial, que havia sido alertado por alguém que estava a passar, de que aquele jovem havia assaltado uma casa de câmbio, ordenou que ele parasse e se entregasse. Hesitante, o jovem atirou três vezes, o que custou a vida do policial. Revoltada, a multidão começou a perseguir o assassino, que continuava a atirar, ferindo uma moça no pescoço. Finalmente, ele se rendeu e foi preso.






O crime ganhou repercussão na França. O homicida não era um homem comum, mas filho de um rico banqueiro. Levado a julgamento, não demonstrava arrependimento. Com seu característico humor sarcástico, limitou-se a dizer: “Arrependo-me de não ter usado uma metralhadora”. O tribunal marcou uma audiência futura, na qual seria decidida a condenação à guilhotina. Já na prisão de La Santé, foi levado ao capelão, a quem falou: “Não tenho fé. Não se preocupe comigo”. No entanto seu advogado, Paul Baudet, católico fervoroso, decidiu lutar não apenas para salvar a vida de seu cliente, mas, sobretudo para salvar sua alma. Jacques Fesch contava também com o apoio espiritual do velho capelão dominicano. Com o passar do tempo, começou a sentir uma angústia que penetrava no mais profundo de seu ser. Uma angústia pela vergonha que havia causado à sua família. Crescia o temor da morte, ao passo que os dias para sua possível execução se aproximavam. Entretanto, ele continuava cético e descrente. Chegou por vezes a ter desejos de atentar contra sua própria vida.




Primeiro julgamento





Foi na noite de 28 de fevereiro de 1955 que sofreu uma conversão repentina após ter passado por uma experiência mística. Assim descreve: “Estava deitado, olhos abertos, realmente sofrendo pela primeira vez na vida. Repentinamente, um grito saiu de meu peito, uma súplica por ajuda – Meu Deus – e, como um vento impetuoso que passa sem que soubesse de onde vem, o Espírito do Senhor me agarrou pela garganta. Tive a impressão de um infinito poder e de uma infinita bondade que, daquele momento me fez crer com convicção que nunca estive abandonado.”

domingo, 16 de outubro de 2011

Evágrio Pôntico (sobre a oração)





Evágrio Pôntico - séc. IV


Traduzido por Jean Gouillard



 * * *



Originário da Capadócia, discípulo de são Gregório Nazianzeno, passou os últimos dezesseis anos de sua vida no Egito, como anacoreta.

Herdeiro dos grandes Alexandrinos, Clemente e Orígenes, ele cunhou, sob a nova forma da centúria espiritual, os princípios de uma mística decididamente intelectualista. A ascensão espiritual consiste em reintegrar a alma na «contemplação primeira», em que ela verá a Deus em si mesma, como num espelho. No caminho, o espírito - o noüs - terá de se despojar dos pensamentos apaixonados; depois, mesmo dos próprios pensamentos simples, até a completa nudez de imagens, de conceitos e de formas. A contemplação primeira será então realizada e, com ela, a oração perfeitamente pura, que é apenas outro nome daquela.

Evágrio conduz uma das grandes correntes da espiritualidade bizantina. João Clímaco, Máximo, o Confessor, Simeão, o Novo Teólogo, os Hesicastas, são seus herdeiros. Implicado na condenação do origenismo (em 553), acham desagradável citá-lo, mas ele penetra em toda parte: plagiam-no ou reproduzem-no, com o inconveniente de anatematizá-lo na passagem, como João Clímaco, por exemplo.

A Filocalia - deixando de Lado o bem Laborioso e às vezes pueril «Evágrio do pobre», assinado Teodoro de Edessa - apresenta quatro textos do Pôntico: Esboço da vida monástica (P.G. t. 40., cc. 251s.), Discernimento das paixões e dos pensamentos (P.G. t. 79, cc. 1199s.), Trechos escolhidos nos capítulos sobre a sobriedade (P.G. 40, Capita pract. passim) e finalmente, sob o nome de Nilo, Tratado sobre a oração (P.G. t. 79, cc. 1165-1200), ao qual nos limitaremos aqui, considerando de bem perto a preciosa interpretação do Pe. I. Hausberr, que é um «Evágrio comentado por ele mesmo».

Sem falar da oração do coração, Evágrio destaca, com insistência, um certo número de traços encontrados de ponta a ponta da Tradição: guarda do coração, despojamento do espírito; simplificação da oração; ilusões, imagens, formas etc.


2. A purificação, da alma, através da plenitude das virtudes, torna a disposição da inteligência inabalável e apta a receber o estado procurado.

3. A oração é uma conversa da inteligência com Deus: que estado não é, pois, necessário, para essa tensão sem retorno, para ir a seu Senhor e conversar com ele, sem nenhum intermediário?

4. Moisés, quando quis aproximar-se da sarça ardente, foi impedido de fazê-lo, até que tirasse os sapatos. E tu, que pretendes ver Aquele que ultrapassa todo pensamento e todo sentimento, como não te libertas de todo pensamento apaixonado?

5. Primeiramente, ora para obter o dom das lágrimas; assim, poderás suavizar, pela compunção, a dureza inerente à tua alma e, confessando tua iniqüidade contra ti, ao Senhor, obter dele o perdão.

9. Mantém-te corajoso e ora com energia; afasta as preocupações e as reflexões que se apresentarem, pois elas te perturbam e te agitam, debilitando o teu vigor.

10. Os demônios te vêem cheio de ardor pela verdadeira oração? Eles te sugerem, então, o pensamento de certas coisas, que te apresentam como necessárias. Depois, não tardam a avivar a lembrança que a elas se liga, levando a inteligência a procurá-las. A inteligência não as encontra, entristece-se profundamente e se aflige. Chegado o momento da oração, eles devolvem então à memória os objetos de suas buscas e de suas lembranças; assim, enfraquecida por essas associações, ela não, vai conseguir realizar a oração proveitosa.
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